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O dilema
Ocorreu-me que o maior dilema dos mais obcecados utilizadores do Twitter é quererem twittar que o serviço está em baixo, na oportunidade de dizerem algo de realmente importante durante o dia, talvez a única, e não conseguirem. A sensação deve ser tão frustante que alguns até recorrem ao blog para desabafar. Triste. Ah espera…
Nas nuvens
É sabido que nós, os humanos, precisamos de referências para evoluirmos, faz parte da nossa natureza e sem elas temos imensa dificuldade em nos orientarmos e ficamos perdidos sem sabemos se estamos no caminho certo. As referências, sejam pessoas, líderes, datas, nomes ou simplesmente coisas, são assim como as bombas de gasolina e os cafés da Mimosa na altura da antiga IC1 que ligava Lisboa ao Algarve quando não havia auto-estrada: sem elas era impossível fazer a viagem.
Na Internet há várias referências ao longo da sua história e quase todas corroboram o meu raciocínio. Uma das mais recentes e mais conhecidas é o fenómeno da Web 2.0. Se o Tim O’Reilly não tinha inventado o nome, não tivesse ele o brilhantismo de constatar que estava em curso uma significativa mudança de comportamento dos utilizadores e de a baptizar e a bradar atempadamente aos sete ventos, e nada de tecnologicamente significativo teria acontecido nos últimos 5 anos, o que seria muito triste. Porque a realidade é que de facto, tecnologicamente falando não houve realmente nenhum “breakthrough”. Mas o que é importante reter é que o simples facto de alguém ter criado um nome e assinalado o momento com um chavão tão “catchy” como Web 2.0 foi o combustível suficiente para fazer explodir uma nova geração de serviços na Internet. Uma simples constatação que estimulou uma evolução e que praticamente criou uma nova indústria de startups e serviços, a dos websites em tons de pastel, com urls terminados em …kr ou ..tr, que usam e abusam do xmlhttprequest (vulgo ajax, outra referência), que têm apis, são “open”, têm um blog e que de uma forma ou de outra se dizem ter características de “social networking” (e vai outra).
As referências são fixes, é seguro dizer. Sem elas não andamos para a frente, e não é sarcasmo, juro.
Isto tudo para me levar ao tema do post: The Cloud, a buzzword do momento. Não há fabricante, fornecedor ou consultora da área que se preze que não tenha hoje uma vincada opinião sobre a clara tendência da migração dos serviços para a Cloud. E aí está uma oportunidade perfeita e a aparecer na melhor altura para potenciar uma nova vaga, vigorosa e revitalizada, de produtos, serviços e projectos para meter as empresas modernas e com olho para o futuro dentro da bem-fadada nuvem.
Mas o que é fascinante para mim e talvez o que distinga esta referência de outras, é que esta é completamente feita de vapor e parece-me servir um único propósito: o dos vendedores. Ou eu sou muito cego ou não há nenhuma ruptura de comportamentos ou tecnologias a acontecer, há simplesmente um tendência linear que não mereceria ser assinalada se não fosse a oportunidade de colocar a malta nas nuvens, só para manter a metáfora. Senão vejamos:
“The Cloud” vem da velha representação nos slides e nas apresentações da Internet, que seria tão complexa e grande para desenhar que se convencionou uma simples núvem aonde tudo estaria, desde o site do museu do louvre à página de entrada de Portugal. O resto torna-se óbvio, hoje temos tudo na Internet, a nossa agenda, as nossas fotos, os vídeos, o blog, saiu tudo do computador, emanciparam-se e foram viver para a nuvem aonde todos os podem ver comodamente em qualquer lado e de qualquer forma. E para suportar esta visão surgiu o “Cloud computing”, que é uma espécie de computador que também vive nos céus.
Só que, ao contrário do que se diz por aí agora, “Cloud computing” é um modelo não é uma tecnologia nem um produto. É uma arquitetura que consiste em utilizar um conjunto de tecnologias que já existem há anos e amadureçam naturalmente: APIs, serviços, a Web e o browser como uma plataforma de aplicações, computação remota e/ou distribuída, os nossos dados e a nossa vida na Internet (literalmente para alguns). Não há um produto de “Cloud computing” chave na mão e quem vos disser o contrário está a enganar-vos. E justiça seja feita, se alguém merece reconhecimento por anos de advocacia e pelas suas iniciativas que nos permitem hoje conceber este paradígma com clareza e robustez não são certamente os mesmos que hoje se aproveitam da moda.
- A Amazon através da AWS disponibiliza produtos como o SimpleDB, o EC2 ou o S3, entre muitos outros, e o seu CTO Werner Vogels é um dos grandes evangelistas e visionários deste modelo. Respect.
- O Google fez o Google Apps (goste-se ou não), lançou o App Engine, tem uma série de aplicações riquíssimas que mostram claramente que a web como plataforma existe e sempre deram o exemplo ao abrirem APIs à comunidade. Respect.
- A Big Blue IBM tem tido um papel moderado na adopção deste tipo de arquiteturas, no entanto tem apoiado uma série de projectos Opensource relacionados. Respect.
E depoia hoje qualquer um pode construir a sua própria “Cloud” com a sua infra-estrutura de tecnologias e serviços baseada exclusivamente em componentes Opensource, a saber:
- Hadoop, uma espécie de versão Opensource do GFS, implementa MapReduce e pode processar Petabytes de informação.
- CouchDB, uma base de dados acessível por APIs REST/HTTP/JSON, distribuída e fault-tolerant.
- Xen, virtualização para todos.
- E claro, um catálogo de APIs. No SAPO, a título de exemplo, construímos o BUS e o Broker que foram fulcrais para o nosso futuro. Há outras soluções.
- Adicione-se OpenID e OAuth e uma pitada de Microformatos.
E termino citando o Anton Ego: “Since you’re all out of perspective and no one else seems to have it in this BLOODY TOWN, I’ll make you a deal. You provide the food, I’ll provide the perspective…”.
Ou em Português, não se deixem levar pelo recente hype do “The Cloud”, metam pespectiva nisso, compreendam o que significa e o que está na sua base. Os modelos são isso mesmo, são opções não são verdades absolutas nem inevitáveis. Há multiplos cenários possíveis, construam o vosso gradualmente (e de forma modular) e não se deixem levar pelas “gordas” dos estudos nem pelas “silver bullets” dos fabricantes. You’ll regret.

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