24 March 2009 ~ 2 Comments

ETech 2009

3370939jpgPassei a última semana em San Jose na ETech, a minha conferência fetiche e o meu retiro anual prolongado da azáfama do SAPO, facto que não deve ter passado despercebido aos meus estimados seguidores do Twitter.

Para os menos atentos a ETech é uma (há quem diga que é *a*) conferência da O’Reilly em grande parte organizada pelo Brady Forrest e apadrinhada pelo mister Tim O’Reilly, é sobre tecnologias emergentes mas não é necessariamente um local aonde se encontre um densidade anormal de geeks. Na realidade os temas abordados são tão vastos que extrapolam a especificidade da Internet e os participantes aparecem de todos os quadrantes, desde a internet, artes, ciência, medicina ou educação. E é esta diversidade e a mistura destas valências todas que torna o evento tão interessante para mim. É uma oportunidade única para “sair da caixa” e ter uma breve visão do que é que está realmente a fervilhar no globo, de ter contacto com o génio inquestionável dos oradores convidados e de masturbar a mente com ideias anormais que dificilmente teria se não saísse do contexto aonde estou inserido durante a maior parte do ano.

Outra característica da ETech de que eu gosto é que os benefícios não nos batem istantaneamente, levam tempo para digerir, só sabemos inquestionavelmente que saímos de lá mais ricos. Uma grande parte dos meus amigos pede-me sempre uma reacção imediata mas eu não a tenho para dar. Faço esta ainda a quente, portanto factual, no avião de regresso a Portugal (sim, isto está há 1 semana na calha à espera de tempo para meter os links nos post).

Este ano, ao contrário dos anteriores, a conferência mudou de San Diego para San Jose. E ainda bem porque já estava francamente farto de 3 anos consecutivos a visitar o Zoo, a comer no Gaslamp district e a fazer compras no Fashion Valley. Para quem não sabe San Jose só é a cidade que alberga praticamente todos os “headquarters” das grandes empresas da nossa área, e é um condensado de startups, empreendedorismo e tecnologia, e fica perto de Silicon Valley a pérola da alta tecnologia na Califórnia.

Assim sendo aproveitei o fim de semana sem compromissos (excepto meter em ordem o bio-relógio, adiantado 8 horas) para alugar um carro e visitar os clássicos, dar umas voltas ao Infinite Loop em Cupertino, fazer uma visita ao Computer History Museum em Mountain View (twit), passar pelo Googleplex e para rematar um passeio de light train até Mountain View em que, só para terem uma ideia,  passa junto aos HQ do Yahoo!, Nasa e Lockhead Martin, too name a few. Risquei uma série de pontos da minha check-list existencial, good.

De volta à ETech, por onde começar?

Em primeiro lugar começo por dizer que uma grande fatia dos temas abordados estiveram directa ou indirectamente ligados à crise que se vive nos Estados Unidos (e que se sente em cada conversa que se tem) e à mudança que o mundo está a atravessar na generalidade. Assim sendo falou-se muito de energias renováveis, de medicina e novas aplicações (gostei particularmente da senhora Christa Hockensmith, com o seu ar de avózinha simpática, mas que faz investigação com explosivos e estuda micro explosões ao nível molecular no tratamento de doenças), e da criação de valor. A Keynote do Tim O’Reilly, “Work on Stuff that Matters” (que pode ser vista aqui, slides aqui) foi (como sempre) particularmente cativante e deu o mote para os restantes dias. Houve dois projectos que me captaram a atenção, um foi o Wattzon que é uma tentativa de medir o impacto energético de cada um de nós com base em dados públicos e em contribuições da “crowd” (e uma API), o outro foi o stand da Powerbeam Inc que tem uma tecnologia de transporte de energia wireless para uso doméstico que começa a ganhar alguma tracção.

O outro tema que predominou (pelo segundo ano consecutivo, diga-se) foi toda a àrea de visualizações e dados. A Stamen esteve em grande com os seus mapas interactivos inovadores e com os trabalhos que andam a fazer, com as formas originais de representação de pontos, padrões e tendências em cima de mapas e que os separam claramente da multidão dos mashups e dos pinos vermelhos em cima dos mapas do Google. Adorei também ver a talk do Aaron Koblin sobre “Making Art with Lasers, Sensors, and the Net”, o criador do famoso vídeo dos Radiohead, House of Cards, que decerto conhecem (vale a pena ver o making of). O homem trouxe parte da equipa e veio armado com o laser Velodyne (que só custa a módica quantia de $75.000 USD), mostrou-nos o portfolio dos seus trabalhos e uma demonstração do laser em acção (twit) (devem surgir vídeos sobre isto mais tarde). O Andrea Vaccari do grupo Senseable City Lab do MIT e uma série de visualizações que mostram comportamentos nas cidades com base em eventos e bases em dados de operadores móveis e fixos, neat stuff.

Robôs, é uma área que está a evoluir muito e que começa a aproximar a ficção da realidade a olhos vistos e a preços cada vez mais acessíveis. Giro, só. (twit)

3339593jpgO DIY, a prototipagem e o opensource hardware tiveram um bom peso também. Gostei particularmente da talk do Peter Semmelhack da Bug Labs, que falou do “crowdsourcing” de R&D de produtos de hardware e da “long-tail of electronics”. O “gang” criador do Arduino são um perfeito exemplo e uma inspiração de como é que 4 pessoas de vários cantos do mundo com uma simples ideia criaram um movimento global à volta da electrónica colaborativa, da “computação física”, dos protótipos e da ligação da internet ao mundo sensorial. O Tom Igoe aproveitou para anunciar em primeira mão o novo Arduino Mega (twit). Ouvi dizer que a talk do Bunnie sobre a China (que também foi feita no Codebits btw) também foi um sucesso. O tutorial da Leah Buechley com as suas T-shirts cantantes com o Arduino Lilypad e da ligação dos tecidos, das roupas, dos sensores e da electrónica criou imenso buzz. Adorei também a sessão do Tarikh Korula, fundador da pequena startup Uncommon projects que desenhou a Purple Pedals, uma bicicleta do Yahoo! que tira fotografias e envia-as para a “nuvem” enquanto anda. E claro, a Make! e a Craft! tinham um salão próprio cheio de gadgets, livros, componentes, kits, projectos DIY, etc.

Esta empresa de NYC, a Uncommon Projects (motto: “Stuff Nobody Else Makes, Made Special”) entrou para o meu radar também. Malta do melhor a queimar neurónios de formas inovadoras, a empresa que eu quereria ter feito se não fizesse o que fiz e fosse o que sou e vivesse aonde vivo. Na ETech Fest tinham mais uma série de projectos em demonstração, todos muito muito loucos, destaco o Fortunebird.

A pérola da semana vai definitivamente para os Siftables. O apresentador desta sessão foi o próprio David Merrill, investigar no MIT Media Lab e que também foi recentemente convidado para falar na TED (video aqui). Um Siftable é um computador, do tamanho de uma pequena bolacha, tem um ecrã OLED, uma série de sensores, APIs e interage e comunica sem fios com outros siftables e/ou com um computador. Eu nem vou tentar descrever o conceito disto nem a sua aplicabilidade, só vos digo duas coisas: 1. surface tables are so 2008. 2. é babante e surpreendente. O grupo de R&D do MIT fez um spin-of e a nova empresa espera comercializar os bichinhos ainda este ano, podem subscrever o blog. Tive a oportunidade de brincar com eles e de falar com David e pronto,  drool, must… have… a set. Com sorte devo ir ao MIT sponsors day em April, quem sabe se…

De resto, das BOFs a que assisti destaco a do Searchmonkey do Yahoo!. Duplamente interessante, primeiro porque tive a oportunidade de conhecer o gestor do produto BOSS e de perceber para onde caminha o projecto (o que me fez pensar muito na vida), e segundo porque o “Bananamaster” Paul Tarjan é um brilhante orador. O Searchmonkey é uma plataforma que o Y! lançou recentemente e que permite a qualquer webmaster produzir um plugin que pode ser usado na pesquisa do Yahoo e que adiciona à página de resultados meta-informação associada (ie: a foto do site, os amigos da pessoa, etc). Tudo isto faz parte do plano maquiavélico da empresa para conquistar a liderança da Web Semântica. O “crawler” já está a catalogar uma brutalidade de microformatos bem conhecidos nas páginas (podem ver um exemplo aqui). Esta é uma boa altura para começarem todos a pensar em adoptar microformatos. O SM, em poucas palavras, é uma espécie de cenoura que o Y! está a dar à comunidade para criar a massa crítica suficiente para passar da catalogação à indexação, ou da teoria à prática, e de materializar talvez pela primeira vez a visão da tal web com uma gigante base de dados. Tudo pode acontecer, claro, inclusive uma tal aquisição lá vinda dos lados de Seattle, mas fico contente por ver que a Big Purple não ficou a dormir à sombra das desgraças (internas e externas) e que tem hoje em mãos a oportunidade de liderar algo importante no futuro próximo e fazer do Google um follower. A ver.

Cheguei a mencionar o chips de RFID que foram distribuidos aos participantes? (aonde é que eu já vi isto?)

Outras das coisas boas da ETech é o ambiente. Passa-se tudo num Hotel (de luxo, diga-se) e tipicamente os participantes estão alojados no mesmo edifício (ou muito perto, depende da bolsa do patrocinador, eu tenho sorte) e o programa começa bem cedo por volta das 8:30 e tem actividades até tarde por volta das 23:00. Embora pareça cansativo, e é, mas há um clima de networking, de proximidade e rotatividade das pessoas tão grande que a coisa transforma-se em energia positiva e adrenalina. Marcou-me especialmente a actuação da Zoë Keating que se tornou num “happening” da ETech: imaginem uma artista cheia de talento, totally geek, que toca violoncelo com a ajuda de um computador e uns pedais, que constrói “loops” à medida que vai tocando e os vai re-misturando acabando por criar uma orquestra de violoncelos. Agora imaginem que o concerto está a ser filmado pelo pelo tal laser Velodyne e que o Aaron Koblin pede à audiência para se levantar, aproximar do palco e fazer uma coreografia para trabalhar tudo depois. Um bocado roto para os standards latino-europeus, eu sei, mas definitivamente marcante. O vídeo deve surgir nos próximos dias.

O Tim O’Reilly aproveitou para anunciar que a Gov 2.0 Summit está confirmada para 9 de Setembro e aparentemente tem um grande backup da presidencia dos US. Transparência, colaboração e governo são temas na ordem do dia nos US. Rui, meu caro, freta lá o avião e leva-os todos para Washington DC, o País não se importa de ficar sem governação durante uns dias, é por uma boa causa. Mais sobre isto noutro post, talvez.

Na 4ª feira à noite houve também uma sessão Ignite (vídeo). Nove apresentações, 5 minutos cada uma, 20 slides, que rodam de 15 em 15 segundos automaticamente e que obrigam o orador a acompanhar o ritmo e a vender o seu projecto ou a sua ideia a uma audiência voraz (e crítica). Já conhecia o conceito mas não sei bem porquê, nunca tinha assistido a uma sessão. Adoro estes formatos de apresentação e de discussão. Pergunto, malta, porque é que não fazemos uma coisa destas em Lisboa? Who’s in?

Um dos projectos que surgiu na Ignite e de que gostei bastante foi o Lab Signific. É uma espécie de concurso de ideias, colaborativo, baseado em cartões virtuais (think twitter e post-its) com rankings de popularidade de ideias e que tem como ponto de partida um mote. O mote na ETech foi “What will you do when space is as cheap and accessible as the Web is today?” (algo que pode bem ser possível daqui a uma década). O outro que me agarrou à cadeira foi a história dos tubos pneumáticos em Paris apresentada pela Molly Wright Steenson (Steampunk Infrastructure, 21st Century Uses, aqui).

Não me posso esquecer que aproveitei para rever uma série de conhecidos, incluindo o Bunnie Huang da Chumby, o grande e único Mitch Altman da Make! (que me deu um efusivo abraço à americana, daqueles que deixa qualquer europeu habituado a um simples e cordial “passou bem e até já” meio embaraçado) e claro a malta do Scratch que também surpreendeu pela positiva a audiência (aparentemente o Scratch já é mais conhecido em Portugal do que nos US, é bom saber que estamos na linha da frente no que diz respeito a bons parceiros).

As tags da ETech foram etech e etech09, vão encontrar imenso material na web social. Algumas apresentações das sessões podem ser encontradas aqui ou no Slideshare. Existem também uma série de vídeos no Youtube e no canal da ETech no blip.tv. As coisas devem ir surgindo, sugere-se a subscrição dos feeds. Fui também guardando aqui uma série de links para referência.

Sugere-se também o feed de twitter da @etech e os posts regulares do O’Reilly Radar.

Pronto aqui fica o sumártio executivo, que também serve de draft para a sessão interna que vou fazer no SAPO. Para o ano há mais.

PS: Também comprei um Kindle 2 por terras americanas, sai um post sobre isto em breve.

  • http://www.phpclasses.org/ Manuel Lemos

    A ideia de sites de partilha de ideias como esse Signific, era boa à partida, mas muitos acabam por morrer porque a verdade é que quem tem boas ideias tenta executá-las, em vez de as dar de borla a quem se aproveite delas e fique com o mérito e proveito.

    Há muitos anos havia um site desses de ideias ( http://www.shouldexist.org/ ) mas acabou por morrer. Há outros, mas receio que de certa forma fiquem limitados a publicar ideias medíocres ou irrealistas, porque em geral as ideias são publicadas por pessoas que não as conseguem executar.

    Esse é um problema da dita Web 2.0 que poderá ser superado por uma eventual Web 3.0. Quero dizer, na Web 2.0 os contribuidores publicam conteúdo de valor de graça e muitas vezes a compensação que conseguem não é muito mais que palmadinhas nas costas.

    Pior que isso é a hipocrisia de muitos sites de conteúdo contribuído em agir como se ainda estivessem a fazer um favor a quem contribui.

    Acredito que a solução para isso é arranjar esquemas que consigam compensar os contribuidores de forma justa e que valha a pena o tempo que gastam.

    Desde há alguns anos que ando a fazer experiências nesse sentido. Umas resultaram melhor que outras. Ando a fazer umas experiências novas. Depois conto-te.

    De resto acho fixe o Tim O’Reilly expor as suas ideias para ajudar a consertar o mundo. Porém, ainda acho muito romântica a ideia de que as pessoas devem fazer tudo mais do que apenas por dinheiro. Isso parece discurso de quem já se encheu de dinheiro e não sabe mais o que fazer com ele.

    A verdade é que por mais sonhos que uma pessoa realize com dinheiro, sempre existirão projectos e ideias que apenas se poderão concretizar com a quantidade de dinheiro que a pessoa ainda não conseguiu obter.

    Portanto, por mais materialista que possa parecer, eu acho que o lucro deve ser o motor das empresas e de seus colaboradores que virão a resolver os problemas que a humanidade precisa.

  • http://abertoatedemadrugada.com Carlos Martins

    Ufff… só de ler o teu post fica-se com a sensação da “carga” que foi. Mas como bem disseste, com temas destes, é um sacrifício que não custa nada a fazer.

    Quem sabe, qualquer dia também lá possa dar um salto. Ou então, a ideia de fazer algo semelhante aqui por casa… não está mal pensado. ;)

    Ando a precisar chatear-te um pouco sobre aquilo do RFID que fizeram no Codebits… mas vou-te deixar re-ambientar à vida normal primeiro. :)
    (ou então se me puderes enviar o email de alguém que tenha estado envolvido nisso e com quem possa trocar umas ideias, agradeço.)