data.gov, dados e Portugal
Impressiona-me como é que os organismos públicos e os seus representantes gastam tanta energia com a discussão, com a análise, com o debate político no fundo em vez de canalizarem esses recursos todos, essa vitalidade, para a execução. Hoje com 36 anos eu já entendo, com alguma dificuldade é certo, que a política é menos um programa de computador e mais um jogo de poker. Há analistas em excesso e executivos em défice. Em Portugal ser político é assim mais ou menos como se um jogador de futebol tivesse a obrigação profissional de comentar os seus próprios jogos para além de maximizar o seu rendimento físico para marcar golos.
Quando não há objectividade não há transparência, por muito que se advogue. E todos sabem que os Portugueses gostam de objectividade: é por isso que quando não há factos, se inventam. A falta de factos resulta numa discussão sem fim entre os que estão no poder, os que estão contra o poder, os jornalistas e os outros agentes, incluindo o povo sempre ávido (não sei bem pelo quê, mas antes isso do que impávido), tudo numa grande taça de maionese. Os desafiantes apanham as coisas pela rama e derivam, e os defesas munem-se com o que podem e teorizam se os factos não forem suficientes, não é que alguém vá verificar de qualquer maneira, o que interessa é discutir.
Após largos meses depois do anúncio eis que chega o dia em que o data.gov é lançado, com pouca coisa é certo mas já dá para ter uma ideia de como vai ser a organização. Infelizmente parece que a concretização passou por um directório de ficheiros e páginas que depois estão alojados em outros sites do governo ao invés de tentarem centralizar os dados e fazerem alguma normalização dos formatos. Os puristas dirão que é assim que deve ser, eu pessoalmente acho que esta abordagem penaliza a utilização directa dos dados e a qualidade do serviço e vai fazer da tarefa de monitorização e manutenção um pesadelo interessante.
Dito isto, esta pode ser uma das medidas mais importantes que a nova administração do governo dos US concretizou até hoje. É com certeza a que mais interesse me despertou, não só porque me considero um ”sucker for data”, a matéria prima dum hacker mas também e acima de tudo porque sofro de uma clareza anormal em relação à grandiosidade desta iniciativa. É claro como a água para mim que um dos factores que mais desacredita qualquer instituição pública é a falta de transparência, mais do que os erros que cometem ou as políticas que não concretizaram ou do que a má imprensa ou opinião pública lhes fazem.
O lançamento do data.gov é também uma boa notícia para Portugal e para o resto do mundo. É que outra coisa que eu aprendi é que o mimetismo na política funciona, especialmente quando o outro lado é o Obama. Agora todos os jornais e todas as televisões vão falar do data.gov, vão-se fazer conferências sobre a iniciativa, vão emergir da multidão os especialistas e vão acontecer coisas, coisas importantes, e essas coisas vão-se tornar mainstream e criar consciência. Em breve estarão reunidas as condições para que outros governos “compreendam” que o proteccionismo dos dados que deviam ser públicos e acessíveis por definição é uma falácia que a médio prazo os prejudica muito mais do que os beneficia.
Antes do data.gov ser lançado apanhei uma discussão interessante num blog sobre se o governo devia ou não, para além de disponibilizar os dados, trabalhar na visualização dos mesmos, isto é, dar-lhes forma, correlaciona-los e apresenta-los de uma forma simples e compreensível para o comum cidadão. Eu digo NÃO, não façam isso por favor. E invoco os dois motivos deste post: 1. A interpretação cabe às pessoas e à colectividade, que farão quase sempre um melhor trabalho do que o governo. 2. Interpretarmos o que produzimos, a não ser que seja para consumo próprio para nos guiarmos, é um sinal de fraqueza e prejudica a transparência. Uma má interpretação pode matar uma boa ideia.
Uma pequena radiografia do que vejo em Portugal:
- Temos dados que deviam estar públicos e acessíveis mas não estão (podem até ser públicos por lei mas o difícil acesso torna-os na prática inexistentes).
- Temos alguns acessíveis e bem (embora dispersos)
- Temos os que estão deliberadamente indisponíveis, às vezes camuflados por visualizações e interpretações parciais dos mesmos.
- Temos por fim os que estão disponíveis mas são inúteis porque não estão estruturados.
E agora podia dar alguns exemplos que todos conhecemos e que caracterizam bem a nossa realidade mas ia tornar este post pouco construtivo e de críticos e comentadores já o País está cheio e farto. Prefiro ser construtivo, quero acreditar o facto de estarmos mal representa uma oportunidade em vez de um problema, e se for preciso arregaço as mangas aviso já, estou disposto a isso. A matéria prima existe, só é preciso cavar, limpar, esculpir e expor. O potencial é enorme.
Recordo-me de alguns institutos que podem fornecer dados a pedido, por via de integração pontual, ad-hoc ou até por export em DVD. Até ai nada de novo, a questão foi a mesma que me foi apresentada aquando minha passagem pela Adm.Publica: “como podemos cobrar por isso?”
Pois, eu já tinha escrito 3 casos emblemáticos e conhecidos no post mas retirei-os à última da hora porque não queria mesmo ligar o lança chamas. Quero acreditar que é falta de visão. Falta-nos muito a big picture, falta-nos talvez um Vivek Kundra não sei.
Casos emblemáticos:
- base.gov.pt versus transparencia-pt.org
- não existir um site para consulta pública e centralizada de todos os concursos públicos a decorrer e já efectuados
Right on Celso!!, excelente post sobre um tema que me tem feito dar voltas à cabeça sobre como convencer as pessoas (que estão por trás das entidades) de que a abertura e transparência lhes é políticamente benéfica. Porque convencê-los sem argumentos políticos (como em jogar póquer) é muito mais difícil. Vítor, agree que o “como podemos cobrar por isso” é de facto um problema – independentemente dos porquês, a realidade portuguesa é haver menos dinheiro para projectos a longo prazo (let’s call it a loop hole).
@LX
Ou explica-me como é que a DGEG lança o “Preço dos Combustíveis Online” http://www.precoscombustiveis.dgge.pt/ sem uma API de exportação dos dados todos. Foi feito um esforço gigantesco para agregar toda esta informação, foi gasta energia política para finalmente implementar isto mas agora o consumidor está preso, completamente preso, à interpretação da DGGE daquilo que o utilizador quer e a uma experiência mal desenhada. Tanto potencial desperdiçado com dados que devem ser moralmente e legalmente públicos e abertos.
O resultado foi o esperado. A iniciativa não teve tracção nenhuma na Internet. O site mais popular de preços de gasolina é de longe, o “Mais Gasolina” http://www.maisgasolina.com/ , completamente construído pela comunidade e com APIs de exportação dos dados.
eu pessoalmente fiquei um pouco desiludido com o data.gov
acho que o site do ine.pt ou do banco de portugal (http://apl1.bportugal.pt/EstatisticasWEB) têm muito mais informação disponível.
falta-lhes, como me parece que falta ao data.gov, uma api.
investiram bastante em ferramentas para explorar e exportar a informação mas esqueceram-se de uma interface programável
quanto a conferencias (http://www.gov2summit.com/) ou outras iniciativas para tentar influenciar quem decide (politicos) também implica provavelmente que temos que ser nós a ir falar com eles porque, definitivamente, a utilização que eles fazem das tecnologias estão na maior parte das vezes ao nível de um qualquer aluno do 9º ano.
Aluno do 9º ano, conheço alguns que se sentiriam ofendidos.
@Vitor Domingos
Se os dados são produzidos pela Administração Pública, estes já foram pagos pelos nossos impostos. Pedir dinheiro pelo acesso a estes dados é cobrar duplamente. Na minha opinião, caso haja um interesse financeiro, essa entidade deve ser privatizada e gerida por privados. Não pertence à função do Estado.
Um post político de se lhe tirar o chapéu, Celso. Vitor Silva com razão: o site do INE tem MONTANHAS de dados, mas são de acesso complexo. Contudo, continuamos a ter um site do Parlamento que é a negação do serviço público e um Diário da República sem distribuição facilitada.
Dados públicos disponíveis + api de fácil uso podem fazer com que muita gente desenvolva projectos interessantes:
http://developer.yahoo.net/blog/archives/2009/06/yql_open_government.html
Estou tarde a comentar este artigo, por só agora ter disponibilidade.
Como já o Paulo referiu o site do INE é um desastre/tragédia.
As analises políticas em Portugal hoje em dia constroem-se não em factos estatísticos, mas sim em percepções generalizadas da população.
Portugal deveria como objectivo a curto prazo, criar um website, onde apresentasse todos os dados num formato accessivel, de forma a que a população, partidos, empresas, etc,etc pudessem de forma simples tirar as suas conclusões sobre um dado assunto.
Se calhar para começar, um bom começo é o INE mudar o formato do website e se aproximar de algo semelhante ao data.gov.
Desta forma acho que se poderia mais facilmente concluir o que ou não necessário alterar,melhor, criar no nosso país. Por consequência os partidos e os políticos poderiam provavelmente apresentarem-nos verdadeiras propostas nos seus programas eleitorais, e de seguida passarem menos tempo a pensar o que vão fazer ou não e efectivamente fazerem.
Ainda ontem vi um pequeno comentário, de Medina Carreira na Sic notícias a apresentar alguns factos estatísticos perfeitamente assustadores…
Provavelmente se os dados estivessem acessíveis, muitos mais problemas seriam detectados.
Sorry pelo offtopic, mas gostaria de saber se por aqui não se arranjam uns convites para o POND? obrigado pela informação.