10 January 2012 ~ 15 Comments

Proposta de Lei 118. Notas avulsas #3

Como já foi amplamente exposto esta lei peca também por ter inúmeras incorrecções técnicas e por estar desligada da realidade industrial. Uma das premissas em que esta lei é baseada é falsa e ofensiva e mostra que quem redigiu esta proposta foram, das duas uma, pessoas de boa fé com um desconhecimento total do que estão a falar ou então pessoas que percebem muito bem o que estão a fazer. Eu acredito na primeira, mas nos dois casos é muito grave.

Quero falar do tema dos discos rígidos, uma das grandes actualizações da proposta de lei 118.

Esta proposta de actualização da lei parte do princípio que um disco rígido (ou outro tipo de memórias não voláteis, esclarece o documento) se equipara, no seu principio de utilização mundana, a uma cassete de áudio ou a um disco compacto. Ou seja, que os consumidores vão utilizar estes dispositivos, na sua proporção devida, para guardar as suas cópias privadas de obras protegidas por direitos de autor.

Ora, eu consigo perceber que exista um determinado segmento de utilizadores que tenha este padrão. Consigo conceber que haja um conjunto de pessoas que tenha o padrão de comprar discos rígidos ou pens USB para guardar cópias privadas de músicas ou vídeos. Mas uma lei não se pode propor com base num padrão não representativo da realidade e acima de tudo, e isto é que é mau, não pode ser cega em relação ao espectro do uso da tecnologia, nem à evolução e ao futuro da mesma. As leis não se mudam todos os dias, e quando se mudam é preciso ter cautela, é preciso garantir que as mesmas nascem bem e que são resistentes ao tempo.

As memórias não voláteis estão na base da evolução tecnológica exponencial das últimas décadas e são uma parte importantíssima do estado em que estamos hoje. Não seria possível termos a Internet, os telemóveis, os GPS, a televisão, o E-mail, os computadores pessoais, os carros, e a sociedade de informação que existem hoje sem esta peça de tecnologia, tal como tudo isto também não seria possível se não tivesse também ocorrido uma (re)evolução computacional na mesma proporção. Uma memória não volátil, disco rígido para simplificarmos a mensagem, é muito mais do que um consumível que o utilizador usa para guardar cópias de músicas.

E se olharmos para o presente e para o futuro a realidade deste equívoco só tende a agravar-se. Os disco rígidos evoluem na mesma proporção do poder computacional, seguem uma adaptação da Lei de Moore, mais precisamente a Kryder’s Law, que determina que a capacidade de um dísco rígido duplica de 2 em 2 anos. Ou seja não há uma relação linear entre o preço do equipamento e a capacidade do mesmo ao longo do tempo. Na realidade, um disco rígido de 500GB podia custar uns 150€ há uns 2 anos atrás, hoje 1TB custa 90€ e estima-se que em 2020, 14TB possam custar cerca de 30€ no mercado.

Em 2020 um disco de 14TB que custe 30€, à luz desta proposta, terá uma taxa de 280€ + 65€ = 345€, mais IVA (após taxa). Em 2020, um vulgar disco rígido, terá um imposto associado da ordem dos 1500%. O tabaco tem actualmente um imposto de 50%.

E agora alguns poderão contestar que 14TB dão para gravar muitas cópias privadas de música com direitos e tal. É verdade sim senhor. Aliás, com uns 100TB, ou seja, 7 discos de 30€ será possível guardar toda a música de todas as principais editoras do mercado em alta qualidade.  Por ~210€ será possível comprar capacidade de armazenamento suficiente para guardar uma cópia de todas as músicas que existem, uns largos milhões de faixas. E esta?

Há também muitos outros conteúdos digitais que se podem guardar num disco rígido, nomeadamente os pessoais cujos formatos digitais tendem a aumentar drasticamente em capacidade. Por exemplo, hoje, uma hora de vídeo filmada numa câmara pessoal em 1080p pode facilmente atingir uns 20GB. E depois de passarmos o material para o computador para o editar o espaço pode facilmente duplicar, ou triplicar dependendo de muitos factores. A minha colecção pessoal de videos e fotografias, e não sou nenhum profissional, ascende aos ~3TB. Mas como eu gosto de segurança, não quero perder as minhas fotografias, tenho RAID (uma tecnologia vulgar que os computadores pessoais começam a trazer de base) e ainda tenho um backup externo. Eu gasto hoje, entre RAID e backup, ~9TB de storage para guardar os meus videos e as minhas fotos. Em 2020 eu vou gastar facilmente 20 ou 30, ou 40TB para guardar a mesma quantidade de material pessoal semelhante, não tenho dúvidas.

Mas em 2020 toda a música do mundo das principais editoras continuará a caber em ~100TB.

Estão a perceber?

Os formatos digitais que suportam as obras com direitos de autor e as ofertas comerciais não evoluem em qualidade e em tamanho na mesma proporção das tecnologias que são usadas no mercado de consumo que são usadas pelas pessoas normais, amadores ou pelos profissionais.

E acima de tudo, não há uma relação directa entre o crescimento da utilização da cópia privada nestes suportes e o aparecimento de novas realidades, novos casos de utilização, que tenham necessidades de quantidades maciças de espaço de armazenamento. E essas realidades vão surgir porque o mundo vai por aí, há cada vez mais largura de banda com a fibra e o LTE na calha, há cada vez mais poder computacional, há cada vez mais criatividade e inovação, o paradigma muda com muito mais frequência.

As novas killer applications vão surgir, e vão necessitar de storage, e os fabricantes vão estar prontos para responder, mas nós em Portugal estamos-nos a propor actualizar um modelo de taxação que nos vai prejudicar a todos e que foi desenhado com base em suportes e premissas que já não existem, um modelo que não vai resistir ao futuro, que está a causar uma enorme revolta nos consumidores, e não temos a preocupação última de perceber as realidades e as variáveis todas e resolver isto como deve de ser.

Entristece.

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  • Joao Castro

    Para além da proposta estar congelada no tempo da forma que demonstraste, com a crescente ubiquidade das comunicações a necessidade de ter cópias privadas tende também a desaparecer tornando este imposto ainda mais anacrónico.

    Com largura de banda suficiente, não poderiamos ter toda a música armazenadas em 100TB (salvo backups) uma única vez no mundo, servida a pedido quando solicitada? Para quê armazenar em N discos distribuídos pela população mundial? Chamam-lhe a cloud…

  • http://miguelalmeida.pt/ Miguel Almeida

    E agora, agora que estamos todos (ou quase todos) de acordo quanto à necessidade e legitimidade (!) de travar esta lei absurda, ainda existe alguma coisa que possamos fazer, de facto, para lhes pôr um travão? Ou já estamos naquela fase em que nos lastimamos pelas imbecilidades que nos impõem mas nada podemos fazer? Alguma sugestão?

  • Pedro Oliveira

    Muito bom artigo, no entanto acho que este imposto ou futura lei não terá o efeito pretendido. Em suma tem a ver com o modelo comercial na Europa da actualidade, nada me impede de comprar o dito disco num dos paises da comunidade sem pagar qualquer imposto especial, mais, se a facturação for no estrangeiro o governo não irá receber o que lhe toca em sede de iva, irc, e se talvez em irs (porque existirão menos trabalhadores no mercado, porque não irá haver mercado).
    Em grande parte os utilizadores de tecnologia e os aficionados da mesma não são avessos as compras online, actualemente a maior parte do hardware que tenho é comprado em países com uma taxa de iva mais baixa se existir uma taxa destas acho que muitas mais pessoas seguirão este comportamento.
    Bem aja a todos

    • http://arrifana.org/blog/ Celso Martinho

      Acho que estás enganado quanto à compras no estrangeiro, vê:

      http://arrifana.org/blog/2012/01/proposta-de-lei-118-notas-avulsas-2/

      • Pedro Oliveira

        Existem alguns países/protetorados que não são tão amigos deste tipo de imposições. Alám disso à lojas existentes no Ebay que permitem a venda sem qualquer tipo de imposto.  Não concordo com o imposto e de facto a proposta é de um desconhecimento total da realidade, parece-me que é apenas uma forma de conseguir alguns euro do cidadão e extremamente penalizador para as empresas da tecnologia.
        O consumidor talvez compre menos, as empresas talvez comprem mais serviços baseados na cloud no estrangeiro, sendo que as empresas tecnologicas (as que apostam na mesma cloud em Portugal) sofrerão mais para se manterem competitivas.
        Se me parecia caro o serviço oferecido pela amazon por TB, talvez no futuro não pareça… quem sabe.

  • http://blog.rcgoncalves.net/ Rui Carlos Gonçalves

    “Mas em 2020 toda a música do mundo das principais editoras continuará a caber em ~100TB.”
    Convém não esquecer que para além de músicas há muitas outras obras protegidas por direitos de autor.  Tenho a certeza que em 2020 100TB não chegarão para guardar todos os filmes e séries disponíveis, por exemplo.  E se hoje são necessários x TB, em 2020 duvido que uns 10x TB sejam suficientes.
    E não sabemos se não aparecerá outro tipo de conteúdos com muito mais necessidades de armazenamento que os conteúdos actuais.

    Provavelmente o post continuará válido mesmo considerando este detalhe (pois duvido que haja uma evolução exponencial como acontece com os discos), mas é verdade é que os conteúdos que esta lei tenta proteger também deverão evoluir de forma significativa nos próximos.  Adicionalmente, também não sabemos se os discos vão continuar com o nível de evolução actual.

    (Apesar do reparo, também discordo completamente da lei.)

    • http://arrifana.org/blog/ Celso Martinho

      A história da música e dos 100TB serviram apenas para ilustram um problema técnico que a proposta de lei tem, a de que o preço de produção por 1GB vai continuar a baixar drasticamente ao longo dos anos mas a forma como querem calcular o imposto não acompanha essa mudança.

      Ou seja, se nada for feito, as receitas provenientes da lei de compensação irão basicamente duplicar ou triplicar de ano para ano (e estamos a falar de centenas de milhões de €), ao contrário da evolução do número de cópias privadas que irão ser realizadas (que já agora provavelmente até vão descer, dependendo da adopção progressiva dos serviços cloud para consumir media).

      Foi só isso.

      • http://blog.rcgoncalves.net/ Rui Carlos Gonçalves

        Se se considerar que de cada vez que se faz streaming de um conteúdo se está a fazer uma cópia privada, então não tenho dúvidas de que o volume de dados associado a cópias privadas vai aumentar também significativamente.  Cada vez existirão mais pessoas a fazer streaming de vídeos e música, e com mais qualidade.  E neste caso, o cloud apenas contribui para aumentar as cópias.

        Podemos dizer que não faz sentido considerar streaming uma cópia privada.  Acho que faz mais sentido do que cobrar por qualquer cópia privada (ou seja, nenhum).

        Há ainda a questão de saber se o que se pretende compensar é o número de cópias privadas, ou o volume de dados a elas associado.  Às editoras interessa mais a segunda opção, e ao taxar a capacidade em vez do preço dos discos, é isto que a lei vai fazer.  Penso que isto já faz um pouco menos de sentido, visto que o que normalmente acontece é haver um aumento da qualidade dos conteúdo (e do seu tamanho) com custos mais ou menos constantes.  Mas este é um argumento que os defensores da lei podem utilizar: vai-se pagar mais, mas, para além de mais conteúdos (e já agora, novos tipos de conteúdo), vão existir conteúdos com mais qualidade.  (Ou seja, os defensores da lei podem dizer que os 100TB vão efectivamente aumentar significativamente, e por isso acho que a argumentação do post não é a melhor, mesmo que a ideia que tenta transmitir esteja correcta.)

        • Anonymous

          Esses streamings já são pagos, pelo utilizador final ou não. Isto, na verdade, vai resultar em dupla tributação. Pago pelos direitos quando compro conteúdos e quando compro discos para armazenar esses conteúdos.

  • Jcapucho

    e o mais absurdo e aberrante é que obviamente será de dificil – ou impossivel – aplicação ao aos serviços na cloud pelo que pode ate ser um nado morto. a vergonha é a de que nao se explica bem a que fim se destinam os fundos e sabemos para quem: para uma Sociedade Portuguesa de Autores, velha, antiquada, comunista e que atua num modelo de extorsão e nao de criação de valor

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  • Miguel Espiga

    No artigo 4º, alínea 4 consta o seguinte: 
    “O disposto nos números anteriores, não se aplica aos titulares de direitos que façam uso de medidas eficazes de carácter tecnológico, previstas no artigo 217.o do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos.”
    Ao produzir uma musica ou um vídeo ou outro conteúdo artisitco considero-me um titular de direito, pelo que fico na lista de “não se aplica aos titualres de direitos”. Acho que vou inscrever-me na Sociedade Nacional de Autores! eu e muita gente!!!
    E vender este tipo de equipamento em segunda mão, leilões e afins, não parece ser alvo  desta proposta de lei.

  • http://twitter.com/rulapa Rui Lapa

    Olhemos para isto do lado empresarial.

    Imaginem comprar storage para guardar, por exemplo, mail, páginas pessoais, imagens de backup/ghost do OS que compramos, repositórios de desenvolvimento, tudo coisas legais.

    Para cada storage EMC/NetApp/… comprado estaremos a pagar uma taxa ASTRONÓMICA. Por cada robot de backup, tape, Pen USB (IOS Cisco, Bios Upgrades), estaremos a pagar.
    Por um lado temos que ter os dados de acesso/logs para processamento juridico, por outro pagamos uma taxa pelo cumprimento da lei.

    Eu empresarialmente tenho Gigas de imagens de OS Linux, todas OpenSource, que vão pagar uma taxa porque pura e simplesmente estão em HD, CD, … O que tem a SPA haver com isso?

    Um Samsung Galaxy S, por exemplo, vai pagar taxa no equipamento (Acesso TV mobile) e no storage interno (Memória interna) e externo (SD).

    Imaginem o custo de um Posto de Trabalho para uma empresa com estas taxas agravadas. HD + CD/DVD + Storage Central + Backups + Web Servers + Base Dados + Pen 3G (tem SD). Acho que é mais fácil despedir funcionários do que pagar o PT.

    Como já se disse, estes senhores estão fora da realidade, até porque hoje em dia comprar um servidor com 750 GB num país sem limitações e partilhar por várias pessoas a nível pessoal é algo fácil e LEGAL. Veja-se casos como a Roménia, a Rússia, …
    Vão banir a Internet? Ainda não temos os olhos em bico… mas para lá caminhamos.

    A nossa vida tem mudado a ritmos alucinantes e cada vez mais a velocidade/hora é um factor PRIMORDIAL na evolução de uma qualquer sociedade/empresa. Já não vivemos nos tempos dos grandes escritores, pintores, escultores e compositores… mas sabem porquê? Porque pura e simplesmente eles davam o corpo e alma pela fama, o mérito, o eterno imortal.
    Não somos 1 milhão… somos biliões com acesso a meios de nos tornarmos imortais. Mas quando a cultura passa a ser TV com 15 minutos intervalo, Reality Shows DEGRADANTES, eventos futebolísticos, e notícias sobre TODO O MAL do mundo, quando os talk shows continuam neste caminho, o cinema, o teatro… só diz uma coisa. É um problema mundial de constante negativismo.

    Os custos agravados só virão aumentar o negativismo pela cultura. Só trarão trabalho inútil aos técnicos/TOCs que terão que passar a implementar/declarar.
    Somos seres humanos, o tempo é finito, e este tipo de coisas só facilitará mais o fugir, o espirito empresarial “este país é uma m****”!
    Não é do português… é de quem se sente perante um estado de injustiça tal, que não vê outra solução.

    A mentes destes culturistas é algo que só eles parecem ver… algo que só se encontra no passado e NUNCA voltará… pois a civilização evolui!

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