09 January 2012 ~ 24 Comments

Proposta de Lei 118. Notas avulsas #1

Qual é afinal a posição pública dos artistas Portugueses em relação a esta indiscritível Proposta de Lei 118 apresentada pelo PS e apoiada por todos os partidos políticos?

Já todos percebemos que o princípio do fundo de compensação artistas é discutível, mas acima de tudo que e a implementação proposta é completamente imbecil, desajustada, mal feita, retrógrada, desligada da realidade actual, redigida por um lóbi não representativo de todos os interesses nacionais, certamente não dos interesses dos consumidores, e acima de tudo imoral. Também já percebemos todos que o objectivo supremo desta alteração, chamemos-lhe assim, é criar um fundo chorudo para dar novamente vida a uma, e passo a citar, “entidade gestora das compensações mandatada e legitimada para proceder à cobrança, gestão e distribuição”, vulgo SPA, sociedade portuguesa de autores, assumo.

Eu gostava era de ouvir a opinião dos autores e dos artistas. Porque é que eles estão calados? Será que eles se sentem mesmo representados pela SPA e pelos apoiantes desta proposta de lei?

Pergunto porque tenho dificuldade em aceitar que sim. Eu percebo que os artistas se preocupem com a pirataria e que procurem apoio político para resolver este problema, e eu até consigo consigo apoiar isto até um determinado ponto, para que fique claro eu acho que qualquer pessoa, grupo ou instituição que promova em público a pirataria de qualquer obra protegida por direitos de autor está claramente fora de pé e à mercê das consequências legais dos seus actos, pior ainda se o fizer para usufruto económico próprio. Mas esta proposta não resolve a pirataria, na realidade até a pode amplificar. E também tenho sérias dúvidas que este fundo, num país como o nosso com a dimensão e mercado que tem, ainda que as taxas fossem pornográficas (e são), consiga resolver ou ajudar significativamente o problema económico dos artistas e a sustentabilidade da arte em Portugal.

Se assim for, apoiam? Sabiam sequer?

Na 6ª feira à noite, num programa do Nicolau Breyner,  apanhei na televisão o João Gil, ele que é um conhecido defensor da penalização da pirataria, a dizer que há falta de vontade política em Portugal para resolver o problema. Estaria ele a referir-se à solução que está a ser proposta neste momento? Concordará ele com ela?

Gostava mesmo de saber.

UPDATE 12/JAN

O João Gil foi informado deste texto e, para minha surpresa, durante esta semana teve a amabilidade de me contactar para esclarecer a sua posição. Tivemos uma conversa cordial e aberta, bastante agradável, sobre o que se está a passar nas redes sociais.  A sua “luta” está fundamentalmente relacionada com a questão da pirataria grave, tema que como já percebemos todos não é afinal endereçado nem está no âmbito desta proposta de alteração de lei. Na realidade confessou-me que nem conhecia em detalhe os contornos da PL118 que foi apresentada no parlamento pelo que nem foi possível discutir com ele os aspetos técnicos da mesma, proposta que prometeu ver com mais detalhe. Disponibilizou-se também para ajudar no que for preciso, nomeadamente de me por em contacto com outras pessoas se for necessário para promover a discussão.

Não vou entrar nos detalhes todos do que falámos, não seria correto, mas acho que ele não me vai levar a mal se eu mencionar que estamos em total de acordo numa coisa: os autores e artistas em geral estão de facto calados perante tudo o que está a acontecer. Deviam manifestar-se, especialmente agora, e mostrarem ao público em geral quais são os seus pontos de vista e as posições que defendem para podermos estimular o debate e ter uma discussão mais racional sobre estes problemas. Não dá para perceber este silêncio.

Ele não me pediu mas eu fiz questão de fazer esta adenda e quero agradecer-lhe por ter tido a iniciativa e a disponibilidade para falar comigo, honestamente não esperava que o fizesse.

  • http://twitter.com/ncruz77 Nelson Cruz

    A “pirataria” não se resolve com “vontade politica” nem com qualquer tipo de legislação (que até pode ser contraproducente). Nenhum pais do mundo o conseguiu e já muita coisa foi tentada.

    Acima de tudo passa pela adaptação do mercado e dos meios de distribuição. Quando apareceu o Netflix nos EUA a “pirataria” diminuiu muito. O mesmo com o Spotify na Suécia. Se querem começar a resolver o problema, apoie-se esse tipo de serviços. 

    Mas infelizmente os interesses instalados têm tanto ou mais medo do Netflix do q da “pirataria”…

    • http://arrifana.org/blog/ Celso Martinho

      “Quando apareceu o Netflix nos EUA a “pirataria” diminuiu muito. O mesmo com o Spotify na Suécia.”. Tens dados que apoiem isto? Gostava de ver, não os conheço.

      A mudança dos paradígmas, dos modelos de negócio, a diminuição do número de intervenientes e mediadores, a ajuda que a tecnologia pode dar em aproximar o mercado dos autores, tudo isto ajuda, e é imprescindível que os artistas se adaptem a esta mudança toda rapidamente.

      Mas daí até dizer que a pirataria não deve ser legislada, já tenho alguma dificuldade em conceber. Roubar é roubar, o resto é filosofia.

      Não pode é ser mal legislada, isso está bem. Não se podem criar leis que penalizem os piratas mas que ao mesmo tempo ponham em causa a liberdade de expressão ou os princípios basilares sobre os quais a Internet foi criada, como é o (mau) caso da SOPA que está a ser discutida nos EUA.PS: Tu tens em Portugal serviços iguais ao Spotify. E mais baratos, já agora, JFYI.

      • fabiop

        define “roubar”…

        • http://arrifana.org/blog/ Celso Martinho
          • JP

            Sem tentar desvirtuar o significado ‘Roubar’ lanço-lhe outra análise, a do termo ‘duplicar’.

            http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=duplicar

            Há que garantir a diferença, de conceito e até de significado entre roubar e duplicar informação, porque na informática e nos conteúdos digitais basta um simples comando (quando o DRM não está envolvido, e quando está afecta a própria liberdade do seu utilizador) permite que um conteúdo seja duplicado. Ora, o produto duplicado já foi comprado e aqui apenas se quebra os direitos de autor e não se pode tratar este problema como roubo.

            Esta lei é claramente um ‘criminalizar’ todos os cidadãos portugueses por algo que até podem ou poderão não cometer, inclusivé empresas e é a forma mais fácil de tentar resolver um problema que não ficará resolvido.

            Aliás, ao contrário do que já foi indicado nesta mensagem, o simples pagamento desta taxa (se aprovada e constitucionamente aceite pelo Tribunal Constitucional) não irá resolver nada e apenas irá roubar (este sim, com significado correcto) os cidadãos consumidores deste tipo de problema para que o valor seja entregue a sociedades e organizações que até agora nada fizeram para combater e tentar resolver esta questão.

            Garantidamente se, esta lei for aprovada, vou sentir-me menos culpado pelo facto de poder vir a ter, no futuro, conteúdo duplicado nos meus dispositivos de armazenamento, porque já paguei uma taxa que irá compensar a posse desses conteúdos. Mesmo que ache totalmente errada e inaceitável esta forma de ‘resolver’ esta questão?

            Certamente que a questão entre o cidadão e as editoras nacionais e internacionais e a respectiva compensação pelos conteúdos duplicados (e ao contrário do que se passa internacionalmente, nomeadamente nos EUA, França, Inglaterra e futuramente em Espanha) passe a ser tratado directamente pela SPA e pelo Governo Português. Sabe responder?

            Infelizmente estamos em Portugal, que tem o quadro legal que todos conhecemos, mas tenho a certeza que noutros países mais civilizados esta lei ou não passaria. Ponto.

            E agora pergunto… Quem controlará os valores recebidos por esta taxa? Quem os distribuirá pelos autores? Qual será a parte recebida quer pelo Governo, SPA, Editoras e Distribuidoras?

          • http://arrifana.org/blog/ Celso Martinho

            Esta lei não é nova e a sua actualização está a passar em todos os países da Europa com o apoio de Bruxelas. É ver:

            http://en.wikipedia.org/wiki/Private_copying_levy

            http://ec.europa.eu/internal_market/copyright/levy_reform/index_en.htm

            Com diferenças entre valores e outros detalhes, o principio é comum: compensar os autores pela partilha ilegal das suas obras.

            Quanto à partilha das receitas que isto pode gerar, os critérios não são claros. Mas ler a proposta e ler o relatório e contas da SPA de 2010 ajuda a perceber o que se pretender montar. E é mau:

            http://app.parlamento.pt/webutils/docs/doc.pdf?path=6148523063446f764c3246795a5868774d546f334e7a67774c325276593342734c576c756156684a5358526c65433977616d77784d54677457456c4a4c6d527659773d3d&fich=pjl118-XII.doc&Inline=true

            http://www.spautores.pt/assets_live/2412/relat_rio_e_contas_2010.pdf

      • Luis Miguel Silva

        Eu acho que o que o Nelson queria dizer e que, com servicos como o Netflix, muitos utilizadores deixaram de fazer downloads na internet porque conseguem os conteudos de forma simples e barata.
        Eu nao me importo de pagar os $7.99 por mes e ter acesso a uma coleccao ENORME em streaming, acessivel na PS3, Wii, Xbox 360 e nao so.
        Nisso, embora nunca tenha visto dados concretos, acredito que o numero de “downloads ilegais” tenha baixado (falo por mim, nunca fiz download de nada ilegal ca nos States).
        E atencao que nao estou a justificar quem faz downloads de conteudos sem os pagar, estou so a dizer com isto que acredito que haja muita gente que nao se importe de pagar uma mensalidade (desde que seja um valor baixo), para ter acesso a conteudos que normalmente fariam download na internet.
        Eu tenho muito respeito pela Netflix e gosto muito da empresa. Acho que revolucionaram o mercado do aluguer de videos e devem ser recompensados pelo seu sucesso.
        Sinceramente, nao fiquei muito satisfeito quando aumentaram o processo para o dobro (do nada…) mas, nao os deixei porque continuam a ter o melhor servico a um preco que continua, na minha opiniao, a ser extremamente justo para o consumidor (isto para nao dizer que e um preco ate “barato de mais” – so nao o digo porque estou agora habituado a pagar $7.99 mas, se os gajos tivessem lancado o servico a $15, eu pagava a mesma).

        • http://arrifana.org/blog/ Celso Martinho

          Como devem imaginar eu conheço bem esses modelos todos e conheço também, relativamente bem, a realidade dos números no nosso país. Não podendo, por razões profissionais, entrar aqui em grandes detalhes, posso dizer que a dimensão do mercado e do país que é Portugal não ajudam muito.

          Não é impossível, e acho que vamos evoluir para estes modelos inevitavelmente, e ainda bem pois eu acho que o futuro é por aí, é bom para todos, mas é difícil, é só isso.

      • http://twitter.com/brunolucas Bruno Lucas
  • Luis Miguel Silva

    Roubar e tirar algo a outra pessoa.
    Neste caso, o distribuidor / autor / quem quer que seja, produz algo, e VENDE esse trabalho (sendo essa a unica forma de acesso ao trabalho).
    Se nao pagas por esse acesso, estas a roubar o autor. (e nao vamos entrar aqui em discussoes filosoficas porque nao e o lugar para elas) ;o).

  • df

    Se a Internet começar a ser censurada temos o caldo entornado. Alguém tem que por termo a isto. Eu vejo o caso negro pois eles querem retirar direitos aos utilizadores e com o tempo podem mudar muitos protocolos da Internet e etc…

  • Fernando Afonso

    Eu só preciso que alguém me explique uma coisa, e isto poderá soar algo infantil, mas esta lei não dá para colocar isto de outra forma…

    Se compro um disco rígido externo de 2 Terabyte, pago a sua respetiva taxa de 42 Euro, isto me dá legitimidade para poder “encher” dita unidade de material protegido com direito de autor? Mera curiosidade.

    • http://arrifana.org/blog/ Celso Martinho

      Não, não dá.

      • Fernando Afonso

        Então não se torna ilegal a cobrança duma taxa por uma pressuposta utilização do produto? Há leis que me ultrapassam… 

    • Gngs

      Sim dá, se for uma copia privada :) Tal como hoje já tens essa legitimidade sem pagar os 42 euros. A proposta de lei não tem a ver com pirataria, tem a ver com a compensação para dos autores da cópia legal das suas obras.

  • http://twitter.com/mario_moreira Mário Moreira

    O que eu acho ridículo nesta discussão toda, é que com base na justificação de um possível crime, cometer outro. Porque eu (cidadão) posso roubar, eles roubam-me para compensar. Sim, porque o que eles estão a fazer é um roubo.

    Estão a tirar-me dinheiro, contra a minha vontade, sem me dar nenhum bem nem serviço em troca, por isso não é uma venda. Qual é a diferença entre o que eles fazem e um roubo?  A única diferença, é que eles tentam legitimar o roubo fazendo aprovar uma lei para isso.

    • http://twitter.com/Wonderm00n Marco Almeida

      Isso mesmo. Não é crime porque passa a estar legislado ;-)

  • Tiago Ferreira

    O Tuga como bom que é a arranjar soluções imbecis para problemas ainda mais imbecis já tem uma:  Comprar discos rígidos dentro da UE, em países onde essa taxa não se aplica.

    • http://arrifana.org/blog/ Celso Martinho

      Pois, mas isso vai ser cada vez mais difícil também. A Amazon já cobra o IVA específico de cada país e não deve faltar muito para ser obrigada, se quer continuar a operar dentro da Europa, a cobrar também as “Private Copy Levies”, vão ser obrigados a isso.

      Fora da Europa também não será problema para o estado, a Alfândega tratará de aplicar as taxas todas.

      • http://twitter.com/one_solo Nuno Guerreiro

        Ha mais vida pralem da Amazon… isto quer dizer, até nem é a Amazon das mais baratas e ha milhentas lojas online alemãs com melhores preços na maioria dos casos…
        E eu duvido que isto seja imposto em Paises como a Alemanha… ao contrario de nos, duvido q a malta de la e mesmo do UK deixasse passar uma lei assim…

        • http://arrifana.org/blog/ Celso Martinho

          Pois. Vamos continuar a pensar nas formas de escapar à lei, é por aí…

          Alemanha, last time I checked, é UE. A UE está inclinada para forçar os merchants, todos os merchants da UE, a cobrar a taxa com base no país de destino e a devolver o dinheiro ao país em causa por isso a prazo é irrelevante se a alemanhã tem ou não tem o mesmo imposto que nós, levas sempre no pelo.

  • ZedaTasca

    Voces indignam-se com isto ?
    Nada que um empresario do ramo da hotelaria já nao esteja habituado ,
    posso dar-vos o exemplo das duas licenças que tive que ir tirar hoje
    para ter cá na tasca, SPA , musica ambiente + ccpt Tv Cabo (por ter
    televisão que ja pago ) 584 euros , depois temos a PassMusica (outros
    chulos ao genero da spa) são mais 571 euros.
    Ou seja cerca de 1200 euros , menos uns trocos ,por duas licenças anuais
    para simplesmente poder ter um cd a tocar ou a televisão ligada.
    Chulo 1 SPA – protege os direitos dos autores
    Chulo 2 PassMusica – protege os direitos dos produtores

    O melhor de tudo é que por exemplo a SPA , é isenta de IVA , ou seja o estado nao ganha um centimo com eles.

  • http://kimico.pip.verisignlabs.com/ kimico.in

    Boas. Gostei do post, Contudo…

  • Antonio

    Caro Celso Martinho.
    Gostaria que fizesse um comentário da seguinte situação:
    Temos um pequeno estabeleceimento Café restaurante, que periodicamente faz Karaoke.
    Acontece que em determinada altura fomos visitados pela Pocicia Municipal de Gondomar.
    que nos alertou que deveriamos ter licença de Karaoke.
    Então e para estar dentro da lei fomos á SPA e lá tiramos  sempre que fazemos Karaoke a respectiva licença. cerca de 15€
    Quase de imediato fomos novamente visitados, onde e agora nos dizem que temos que ter licença do IGAC.
    Mais uma vez pagamos esta licença para um periodo de 3 anos; cerca de 200€
    Como se não fosse o suficiente, novamente somos visitados e desta vez é-nos solicitada a apresentação da licença de ruido.
    Como era final de ano e porque tinhamos feito um programa de passagem de ano lá fomos nós tirar as respectiva licença. Cerca de 39€ por cada hora a partir das 22 e 50€ por cada hora a partir da meia noite.
    ( Até gostaria de saber quanto paga de licença de ruido  um Arrail como a Senhora do Rosário, festa do concelho?)
    E agora fomos visitados pela PSP, no sentido de sermos obrigados a ter uma licença de Passmusica.
    O que é isto ?????
    Informo que somos um pequeno café, situado num lugar de Gondomar. Os clientes sãó sempre os mesmos!
    A nossa facturação mensal não ultrapassa os 2.800€ mês.
    Temos um incentivo do Centro de Emprego pela criação de dois postos trabalho. Que nos obrigou a fazer uma série de obras, entre as quais, a de equipar o estabelecimento com vidros duplos para insonorização.
    Com todos estes impostos como á possivel trabalhar.
    O melhor é fechar portas e mandar mais duas pessoas para o desemprego?
    Que fazer?