Archive

Archive for the ‘Portuguese’ Category

data.gov, dados e Portugal

May 25th, 2009

Impressiona-me como é que os organismos públicos e os seus representantes gastam tanta energia com a discussão, com a análise, com o debate político no fundo em vez de canalizarem esses recursos todos, essa vitalidade, para a execução. Hoje com 36 anos eu já entendo, com alguma dificuldade é certo, que a política é menos um programa de computador e mais um jogo de poker. Há analistas em excesso e executivos em défice. Em Portugal ser político é assim mais ou menos como se um jogador de futebol tivesse a obrigação profissional de comentar os seus próprios jogos para além de maximizar o seu rendimento físico para marcar golos.

Quando não há objectividade não há transparência, por muito que se advogue. E todos sabem que os Portugueses gostam de objectividade: é por isso que quando não há factos, se inventam. A falta de factos resulta numa discussão sem fim entre os que estão no poder, os que estão contra o poder, os jornalistas e os outros agentes, incluindo o povo sempre ávido (não sei bem pelo quê, mas antes isso do que impávido), tudo numa grande taça de maionese. Os desafiantes apanham as coisas pela rama e derivam, e os defesas munem-se com o que podem e teorizam se os factos não forem suficientes, não é que alguém vá verificar de qualquer maneira, o que interessa é discutir.

Após largos meses depois do anúncio eis que chega o dia em que o data.gov é lançado, com pouca coisa é certo mas já dá para ter uma ideia de como vai ser a organização. Infelizmente parece que a concretização passou por um directório de ficheiros e páginas que depois estão alojados em outros sites do governo ao invés de tentarem centralizar os dados e fazerem alguma normalização dos formatos. Os puristas dirão que é assim que deve ser, eu pessoalmente acho que esta abordagem penaliza a utilização directa dos dados e a qualidade do serviço e vai fazer da tarefa de monitorização e manutenção um pesadelo interessante.

Dito isto, esta pode ser uma das medidas mais importantes que a nova administração do governo dos US concretizou até hoje. É com certeza a que mais interesse me despertou, não só porque me considero um ”sucker for data”, a matéria prima dum hacker mas também e acima de tudo porque sofro de uma clareza anormal em relação à grandiosidade desta iniciativa. É claro como a água para mim que um dos factores que mais desacredita qualquer instituição pública é a falta de transparência, mais do que os erros que cometem ou as políticas que não concretizaram ou do que a má imprensa ou opinião pública lhes fazem.

O lançamento do data.gov é também uma boa notícia para Portugal e para o resto do mundo. É que outra coisa que eu aprendi é que o mimetismo na política funciona, especialmente quando o outro lado é o Obama. Agora todos os jornais e todas as televisões vão falar do data.gov, vão-se fazer conferências sobre a iniciativa, vão emergir da multidão os especialistas e vão acontecer coisas, coisas importantes, e essas coisas vão-se tornar mainstream e criar consciência. Em breve estarão reunidas as condições para que outros governos “compreendam” que o proteccionismo dos dados que deviam ser públicos e acessíveis por definição é uma falácia que a médio prazo os prejudica muito mais do que os beneficia.

Antes do data.gov ser lançado apanhei uma discussão interessante num blog sobre se o governo devia ou não, para além de disponibilizar os dados, trabalhar na visualização dos mesmos, isto é, dar-lhes forma, correlaciona-los e apresenta-los de uma forma simples e compreensível para o comum cidadão. Eu digo NÃO, não façam isso por favor. E invoco os dois motivos deste post: 1. A interpretação cabe às pessoas e à colectividade, que farão quase sempre um melhor trabalho do que o governo. 2. Interpretarmos o que produzimos, a não ser que seja para consumo próprio para nos guiarmos, é um sinal de fraqueza e prejudica a transparência. Uma má interpretação pode matar uma boa ideia.

Uma pequena radiografia do que vejo em Portugal:

  • Temos dados que deviam estar públicos e acessíveis mas não estão (podem até ser públicos por lei mas o difícil acesso torna-os na prática inexistentes).
  • Temos alguns acessíveis e bem (embora dispersos)
  • Temos os que estão deliberadamente indisponíveis, às vezes camuflados por visualizações e interpretações parciais dos mesmos.
  • Temos por fim os que estão disponíveis mas são inúteis porque não estão estruturados.

E agora podia dar alguns exemplos que todos conhecemos e que caracterizam bem a nossa realidade mas ia tornar este post pouco construtivo e de críticos e comentadores já o País está cheio e farto. Prefiro ser construtivo, quero acreditar o facto de estarmos mal representa uma oportunidade em vez de um problema, e se for preciso arregaço as mangas aviso já, estou disposto a isso. A matéria prima existe, só é preciso cavar, limpar, esculpir e expor. O potencial é enorme.

Portuguese, Tech stuff , ,

Stats Facebook em .pt

April 20th, 2009

Inadvertidamente descobri uma pequena API do Facebook, utilizada no wizard de estimativas de publicidade do serviço que permite fazer todo o tipo de queries demográficos à base de dados de utilizadores do Facebook. Decidi queimar 1 hora e fazer um script para extrair os dados. Eis as estatísticas para Portugal:

Total Portuguese users: 188500
Total male users: 88000
Total female users: 95900
Total users from 0-20y: 27380
Total users from 21-30y: 89160
Total users from 31-40y: 49760
Total users with +41y: 24120
Total male users interested in males: 560
Total female users interested in females: 2740

Update, e já agora as mesmas stats para Espanha:

Total Spain users: 4457480
Total male users: 1966680
Total female users: 2390600
Total users from 0-20y: 672140
Total users from 21-30y: 2032400
Total users from 31-40y: 1264840
Total with +41y: 454620
Total male users interested in males: 19760
Total female users interested in females: 132320

Script em PHP para correrem as vossas stats aqui.

Portuguese, Tech stuff , , , ,

Suporte a clientes à maneira!

April 9th, 2009

wikicareSe há algo que cerca de 9 anos de “contexto” PT e mais uns poucos a armar-me em empreendedor me ensinaram é que a parte mais difícil de qualquer grande negócio de serviços para o consumidor  é o suporte aos nossos clientes. Lidar eficazmente com problemas e com pessoas, ou melhor, com pessoas com problemas é um desafio e peras.

Se há equipas que eu respeito são aquelas que se matam por um melhor atendimento e por um melhor suporte aos nossos clientes ou utilizadores. Depois do produto, a nossa ajuda e o nosso apoio são sem sombra para dúvida o segundo factor mais distintivo que podemos ter nos nossos serviços, para o bem e para o mal.

Tudo isto parece óbvio mas do falar ao fazer vai uma grande distância. E é por isso que sinto algum orgulho quando finalmente vejo o projecto Wikicare aberto ao público em geral. É relativamente fácil hoje em dia para uma empresa de telecomunicações perceber que as ferramentas da Internet podem ajudar no relacionamento com os seus clientes mas é substancialmente mais difícil conseguir entender de caras o ecosistema da partilha de informação, e perder o medo da exposição e da crítica pública em prol da transparência e da vontade sincera de prestar um melhor serviço e de apostar na informação.

O Wikicare e o Wikicare TMN são dois projectos em que o SAPO participou, são bases de conhecimento do apoio a clientes do ADSL, Meo e TMN, transformadas numa Wiki e que portanto, para além da consulta e da pesquisa podem ser enriquecidas com o feedback e os cometários dos próprios clientes de uma forma colaborativa. “Think” wikipedia aplicada ao suporte. Mas o que na minha opinião realmente faz a diferença, porque se trata de atitude mais do que tecnologia,  é que a organização teve a coragem de abrir o repositório ao mundo. A partir desta semana os Wikicares podem não só ser consultados pelos nossos clientes mas também pelo público em geral e sabe sempre bem mostrar ao mundo (e à concorrência já agora) o que de melhor se faz cá dentro, sem vergonha, mesmo admitindo que pode ser melhorado.

Portuguese, Tech stuff , , , , , , ,

Kindle 2 & eBook readers

March 30th, 2009

kindle-2jpgSou proprietário de um Kindle 2 há umas semanas, desde que vim da ETech.

Desde então tenho-o utilizado com alguma frequência, aquela que consigo, mostrei-o a algumas pessoas e tornei-te mais interessado por todo o tema do eBook reading. As pessoas têm-me feito perguntas, se gosto, se é bom, ou qual é o nexo disso, entre outras. Este é um pequeno post que resume 3 semanas de incursão neste universo.

Em primeiro lugar devo dizer que quando começaram a aparecer os eBook readers eu posicionei-me orgulhosamente no perfil de ultra-céptico. Não pelos nobres (mas irrelevantes, para mim) motivos que estão a imaginar, ou porque o cheiro dos livros e tacto das folhas são insubstituíveis, ou porque as prateleiras do escritório querem-se cheias, não, fiquei de pé atrás porque sempre duvidei que a tecnologia actual pudesse substituir a comodidade e a qualidade de um livro em papel, somente. Comodidade pelo acesso rápido e mobilidade dos conteúdos que quero e qualidade porque não quero lixar os olhos enquanto leio, horas a fio.

No entanto a coisa começou a despertar-me algum interesse quando comecei a ler reviews extremamente positivas do Kindle e quando um ou outro amigo decidiu comprar um eBook reader. E com o lançamento do Kindle 2 a coincidir com uma visita minha aos US, adicionem-lhe o factor geek, e lá decidir comprar um.

E estou maravilhado e rendido. Não vou fazer uma review do Kindle, muitas na web, vou só dizer isto:

- Os ecrãs de eink (wikipedia) são de facto muito bons e funcionam tal e qual como são anunciados, isto é, não reflectem e são opacos, são muito nítidos. têm muita resolução, e quanto mais luz lhes incidir melhor é, incluindo a luz solar. E nem  me venham falar da tecnologia LCD, como é boa etc, porque não há comparação possível. Hoje estive umas 2 horas a ler ao sol e acabei não pelo cansaço dos olhos mas porque estava um calor do caraças.

- O peso e o tamanho. “Just about right”, é do tamanho de um livro normal, mais fino e pesa aproximadamente o mesmo.

- O Kindle é proprietário e relativamente fechado e deve ser visto como um instrumento estratégico da Amazon cujo modelo de negócio não é vender eBook readers mas sim vender livros e fechar o círculo do markeplace. Quem procura um reader aberto, cheio de features, opensource com ssh e apt-get então que dê uma vista de olhos nas alternativas, começam a haver muitas. Aliás, surgem modelos novos de fabricantes novos quase todas as semanas, eu diria que estamos a assistir a uma avalanche deste tipo de aparelhos. Dito isto, o DRM da Amazon não me podia incomodar menos.

- Para além dos livros da Amazon, é possível colocar outros eBooks, livres, no Kindle. O que já me incomoda um bocado é que o formato PDFs não é suportado nativamente e tem que ser convertido primeiro por um serviço da Amazon, perdendo uma série de características no que diz respeito a paginação e elementos gráficos.

- Actualmente o Kindle só se vende nos EUA, não é possível comprar um Kindle em Portugal nem é (teoricamente) possível usufruir do serviço da Amazon em mais nenhum País. Os motivos não os conheço, só adivinho que estão relacionados com o time-to-market, direitos de autor, e contratos com operadores móveis.

- A experiencia de abrir um Kindle nos US é fenomenal. Primeiro a embalagem é Apple-grade, depois já vem com a bateria carregada pronto a utilizar, e já traz um livro, uma carta personalizada do Jeff Bezos “Dear Celso, Kindle is an entirely new type of device…” diz. O Kindle está permanentemente ligado à rede EVDO da Sprint (Whispernet) mas o utilizador não tem qualquer relação com a Sprint, faz tudo parte do pacote. Isto significa que podemos compar livros no browser do próprio aparelho e estar a lê-los numa questão de minutos, no meio da praia, ou podemos enviar um livro do PC para o Kindle sem ligar um cabo, e ele auto-magicamente aparece lá. Ou podemos comprar uma assinatura do New York Times e sabemos que as novas edições simplesmente estão no Kindle no momento em que são lançadas. Comodidade.

E mais não digo. O Kindle passou a andar comigo na mochila do laptop em permanência. Termino só uma pequena lista de factos para os mais curiosos:

- Não é possível comprar um Kindle fora dos US mas é possível, uma vez nos US, comprar um Kindle na Amazon com um cartão Europeu e pedir para ser entrega na morada aonde ficarmos. Foi o que fiz. Chegou em 24h ao Hotel aonde estava hospedado.

- Não é possível comprar livros na Amazon com um cartão de crédito que não seja emitido nos US. Eles validam a origem do cartão e levamos com um big “no no” no site. No entanto, há uma ou duas formas engenhosas de dar a volta ao tema e nenhuma delas passa por precisas de um número de segurança social americano (hint). Depois de comprar o livro ele (o ficheiro) fica disponível para download na área de cliente. Os livros em formato digital são substancialmente mais baratos do que a versão impressa. O Outliers custa $15.35 em papel e $9.99 para o Kindle (com a entrega wireless, nos US).

- A componente wireless do Kindle não funciona fora dos US. Em Portugal não há nenhum operador com EVDO, e mesmo que houvesse também não funcionaria porque a Whispernet só existe na Sprint e com a Amazon, nem sequer há um SIM card. Quer isto dizer que estamos agarrados ao PC e ao conector USB. Dito isto, é tudo bastante linear, o Kindle liga-se como uma drive externa, é só despejar os livros (comprados ou livres) lá dentro e voilá.

- A autonomia do bicho é de muitos dias, por dois motivos, primeiro porque graças ao eink a única coisa que gasta energia para além do sistema operativo é a mudança de página, segundo porque tenho o wireless desligado.

- A conversão de PDFs ou documentos Word para o formato Kindle é um serviço gratuito da Amazon e é feito por E-mail. O que se diz na web e que custa $.10US por documento é versão que é entregue wirelessly directamente. Em Portugal não faz sentido. Há também uma série de aplicações desktop para fazerem a conversão de PDFs para um dos formatos suportados.

- Há já uma comunidade considerável de utilizadores geeks de Kindle. O firmware já foi aberto, é um Linux com busybox. É uma questão de tempo até surgirem hacks à séria, eu espero ansiosamente pelo leitor nativo de PDFs.

- O forum de referência para o universo do eBook reading é o MobileRead.

Mais dúvidas, vamos para os comentários.

Portuguese, Tech stuff ,

VoIP ADSL SAPO/Telepac/Meo & Macs

March 26th, 2009

voip1Há já algum tempo que os clientes ADSL da PT são “brindados” com um número VoIP (ou numeração 30, se preferirem).

Na configuração mais típica o cliente tem tudo configurado no router em casa e só tem que ligar o velho telefone analógio na parte de trás para usufruir do novo número.

Para os mais internautas o SAPO oferece aos utilizadores de windows um cliente de messaging que agrega IM e VoIP na mesma aplicação e aonde também podem utilizar o serviço no PC, é o SAPO Messenger.

Para os geeks que gostam de sofrer e de experimentar umas coisas é possível utilizar um client de VoIP genérico com o nosso serviço, só precisam de saber alguns dados primeiro e basta fazer uma pesquisa para perceber quais são. A aplicação mais popular e mais completa (eu diria overkill) é o X-Lite (gratuita e multi-plataforma).

Mas para Mac não havia realmente nada que me satisfizesse, nada que fosse realmente OSX-grade. O X-Lite é uma aberração em termos de peso e interface e as alternativas fazem tudo menos o que me interessa mais, simplesmente chamadas de voz. Há umas semanas atrás o Eduardo chamou-me à atenção de um pequeno projecto chamado telephone que nasceu no Google code. Brilhante, um client de VoIP para Mac, minimalista, feito em Objective-C e Cocoa e que integra com o ambiente OSX, nomeadamente com o Address Book.

Infelizmente na altura, depois de muito tentarmos não foi possível colocar a aplicação a funcionar com o nosso serviço. Mas recentemente surgiu um update e voilá. Este é o client de VoIP para Mac, ponto final. Aqui ficam os passos para o configurarem com o vosso número 30:

Vão às Prefs, depois às Accounts e adicionem uma conta nova, no Full Name metam o vosso nome (tanto faz), no SIP Address metam +35130xxxxxxx@voip.sapo.pt (subtituam pelo vosso número, e se forem clientes Telepac substituam sapo por telepac), no Registry Server metam voip.sapo.pt, no User Name +35130xxxxxxx e finalmente escrevam a vossa password, não toquem na tab Advanced, não é preciso. Activem o Use this account.

voip2

Depois, na janela principal vão à tab Network. Activem o Use ICE, usem o Outbound Proxy proxy.voip.sapo.pt e o Port é o 5070.

voip3

That’s it. Tudo pronto para fazer e receber chamadas com o vosso novo número 30.

UPDATE: Se tiverem problemas tentem desligar o suporte ICE na tab Network.

Portuguese, Tech stuff , , , ,

ETech 2009

March 24th, 2009

3370939jpgPassei a última semana em San Jose na ETech, a minha conferência fetiche e o meu retiro anual prolongado da azáfama do SAPO, facto que não deve ter passado despercebido aos meus estimados seguidores do Twitter.

Para os menos atentos a ETech é uma (há quem diga que é *a*) conferência da O’Reilly em grande parte organizada pelo Brady Forrest e apadrinhada pelo mister Tim O’Reilly, é sobre tecnologias emergentes mas não é necessariamente um local aonde se encontre um densidade anormal de geeks. Na realidade os temas abordados são tão vastos que extrapolam a especificidade da Internet e os participantes aparecem de todos os quadrantes, desde a internet, artes, ciência, medicina ou educação. E é esta diversidade e a mistura destas valências todas que torna o evento tão interessante para mim. É uma oportunidade única para “sair da caixa” e ter uma breve visão do que é que está realmente a fervilhar no globo, de ter contacto com o génio inquestionável dos oradores convidados e de masturbar a mente com ideias anormais que dificilmente teria se não saísse do contexto aonde estou inserido durante a maior parte do ano.

Outra característica da ETech de que eu gosto é que os benefícios não nos batem istantaneamente, levam tempo para digerir, só sabemos inquestionavelmente que saímos de lá mais ricos. Uma grande parte dos meus amigos pede-me sempre uma reacção imediata mas eu não a tenho para dar. Faço esta ainda a quente, portanto factual, no avião de regresso a Portugal (sim, isto está há 1 semana na calha à espera de tempo para meter os links nos post).

Este ano, ao contrário dos anteriores, a conferência mudou de San Diego para San Jose. E ainda bem porque já estava francamente farto de 3 anos consecutivos a visitar o Zoo, a comer no Gaslamp district e a fazer compras no Fashion Valley. Para quem não sabe San Jose só é a cidade que alberga praticamente todos os “headquarters” das grandes empresas da nossa área, e é um condensado de startups, empreendedorismo e tecnologia, e fica perto de Silicon Valley a pérola da alta tecnologia na Califórnia.

Assim sendo aproveitei o fim de semana sem compromissos (excepto meter em ordem o bio-relógio, adiantado 8 horas) para alugar um carro e visitar os clássicos, dar umas voltas ao Infinite Loop em Cupertino, fazer uma visita ao Computer History Museum em Mountain View (twit), passar pelo Googleplex e para rematar um passeio de light train até Mountain View em que, só para terem uma ideia,  passa junto aos HQ do Yahoo!, Nasa e Lockhead Martin, too name a few. Risquei uma série de pontos da minha check-list existencial, good.

De volta à ETech, por onde começar?

Em primeiro lugar começo por dizer que uma grande fatia dos temas abordados estiveram directa ou indirectamente ligados à crise que se vive nos Estados Unidos (e que se sente em cada conversa que se tem) e à mudança que o mundo está a atravessar na generalidade. Assim sendo falou-se muito de energias renováveis, de medicina e novas aplicações (gostei particularmente da senhora Christa Hockensmith, com o seu ar de avózinha simpática, mas que faz investigação com explosivos e estuda micro explosões ao nível molecular no tratamento de doenças), e da criação de valor. A Keynote do Tim O’Reilly, “Work on Stuff that Matters” (que pode ser vista aqui, slides aqui) foi (como sempre) particularmente cativante e deu o mote para os restantes dias. Houve dois projectos que me captaram a atenção, um foi o Wattzon que é uma tentativa de medir o impacto energético de cada um de nós com base em dados públicos e em contribuições da “crowd” (e uma API), o outro foi o stand da Powerbeam Inc que tem uma tecnologia de transporte de energia wireless para uso doméstico que começa a ganhar alguma tracção.

O outro tema que predominou (pelo segundo ano consecutivo, diga-se) foi toda a àrea de visualizações e dados. A Stamen esteve em grande com os seus mapas interactivos inovadores e com os trabalhos que andam a fazer, com as formas originais de representação de pontos, padrões e tendências em cima de mapas e que os separam claramente da multidão dos mashups e dos pinos vermelhos em cima dos mapas do Google. Adorei também ver a talk do Aaron Koblin sobre “Making Art with Lasers, Sensors, and the Net”, o criador do famoso vídeo dos Radiohead, House of Cards, que decerto conhecem (vale a pena ver o making of). O homem trouxe parte da equipa e veio armado com o laser Velodyne (que só custa a módica quantia de $75.000 USD), mostrou-nos o portfolio dos seus trabalhos e uma demonstração do laser em acção (twit) (devem surgir vídeos sobre isto mais tarde). O Andrea Vaccari do grupo Senseable City Lab do MIT e uma série de visualizações que mostram comportamentos nas cidades com base em eventos e bases em dados de operadores móveis e fixos, neat stuff.

Robôs, é uma área que está a evoluir muito e que começa a aproximar a ficção da realidade a olhos vistos e a preços cada vez mais acessíveis. Giro, só. (twit)

3339593jpgO DIY, a prototipagem e o opensource hardware tiveram um bom peso também. Gostei particularmente da talk do Peter Semmelhack da Bug Labs, que falou do “crowdsourcing” de R&D de produtos de hardware e da “long-tail of electronics”. O “gang” criador do Arduino são um perfeito exemplo e uma inspiração de como é que 4 pessoas de vários cantos do mundo com uma simples ideia criaram um movimento global à volta da electrónica colaborativa, da “computação física”, dos protótipos e da ligação da internet ao mundo sensorial. O Tom Igoe aproveitou para anunciar em primeira mão o novo Arduino Mega (twit). Ouvi dizer que a talk do Bunnie sobre a China (que também foi feita no Codebits btw) também foi um sucesso. O tutorial da Leah Buechley com as suas T-shirts cantantes com o Arduino Lilypad e da ligação dos tecidos, das roupas, dos sensores e da electrónica criou imenso buzz. Adorei também a sessão do Tarikh Korula, fundador da pequena startup Uncommon projects que desenhou a Purple Pedals, uma bicicleta do Yahoo! que tira fotografias e envia-as para a “nuvem” enquanto anda. E claro, a Make! e a Craft! tinham um salão próprio cheio de gadgets, livros, componentes, kits, projectos DIY, etc.

Esta empresa de NYC, a Uncommon Projects (motto: “Stuff Nobody Else Makes, Made Special”) entrou para o meu radar também. Malta do melhor a queimar neurónios de formas inovadoras, a empresa que eu quereria ter feito se não fizesse o que fiz e fosse o que sou e vivesse aonde vivo. Na ETech Fest tinham mais uma série de projectos em demonstração, todos muito muito loucos, destaco o Fortunebird.

A pérola da semana vai definitivamente para os Siftables. O apresentador desta sessão foi o próprio David Merrill, investigar no MIT Media Lab e que também foi recentemente convidado para falar na TED (video aqui). Um Siftable é um computador, do tamanho de uma pequena bolacha, tem um ecrã OLED, uma série de sensores, APIs e interage e comunica sem fios com outros siftables e/ou com um computador. Eu nem vou tentar descrever o conceito disto nem a sua aplicabilidade, só vos digo duas coisas: 1. surface tables are so 2008. 2. é babante e surpreendente. O grupo de R&D do MIT fez um spin-of e a nova empresa espera comercializar os bichinhos ainda este ano, podem subscrever o blog. Tive a oportunidade de brincar com eles e de falar com David e pronto,  drool, must… have… a set. Com sorte devo ir ao MIT sponsors day em April, quem sabe se…

De resto, das BOFs a que assisti destaco a do Searchmonkey do Yahoo!. Duplamente interessante, primeiro porque tive a oportunidade de conhecer o gestor do produto BOSS e de perceber para onde caminha o projecto (o que me fez pensar muito na vida), e segundo porque o “Bananamaster” Paul Tarjan é um brilhante orador. O Searchmonkey é uma plataforma que o Y! lançou recentemente e que permite a qualquer webmaster produzir um plugin que pode ser usado na pesquisa do Yahoo e que adiciona à página de resultados meta-informação associada (ie: a foto do site, os amigos da pessoa, etc). Tudo isto faz parte do plano maquiavélico da empresa para conquistar a liderança da Web Semântica. O “crawler” já está a catalogar uma brutalidade de microformatos bem conhecidos nas páginas (podem ver um exemplo aqui). Esta é uma boa altura para começarem todos a pensar em adoptar microformatos. O SM, em poucas palavras, é uma espécie de cenoura que o Y! está a dar à comunidade para criar a massa crítica suficiente para passar da catalogação à indexação, ou da teoria à prática, e de materializar talvez pela primeira vez a visão da tal web com uma gigante base de dados. Tudo pode acontecer, claro, inclusive uma tal aquisição lá vinda dos lados de Seattle, mas fico contente por ver que a Big Purple não ficou a dormir à sombra das desgraças (internas e externas) e que tem hoje em mãos a oportunidade de liderar algo importante no futuro próximo e fazer do Google um follower. A ver.

Cheguei a mencionar o chips de RFID que foram distribuidos aos participantes? (aonde é que eu já vi isto?)

Outras das coisas boas da ETech é o ambiente. Passa-se tudo num Hotel (de luxo, diga-se) e tipicamente os participantes estão alojados no mesmo edifício (ou muito perto, depende da bolsa do patrocinador, eu tenho sorte) e o programa começa bem cedo por volta das 8:30 e tem actividades até tarde por volta das 23:00. Embora pareça cansativo, e é, mas há um clima de networking, de proximidade e rotatividade das pessoas tão grande que a coisa transforma-se em energia positiva e adrenalina. Marcou-me especialmente a actuação da Zoë Keating que se tornou num “happening” da ETech: imaginem uma artista cheia de talento, totally geek, que toca violoncelo com a ajuda de um computador e uns pedais, que constrói “loops” à medida que vai tocando e os vai re-misturando acabando por criar uma orquestra de violoncelos. Agora imaginem que o concerto está a ser filmado pelo pelo tal laser Velodyne e que o Aaron Koblin pede à audiência para se levantar, aproximar do palco e fazer uma coreografia para trabalhar tudo depois. Um bocado roto para os standards latino-europeus, eu sei, mas definitivamente marcante. O vídeo deve surgir nos próximos dias.

O Tim O’Reilly aproveitou para anunciar que a Gov 2.0 Summit está confirmada para 9 de Setembro e aparentemente tem um grande backup da presidencia dos US. Transparência, colaboração e governo são temas na ordem do dia nos US. Rui, meu caro, freta lá o avião e leva-os todos para Washington DC, o País não se importa de ficar sem governação durante uns dias, é por uma boa causa. Mais sobre isto noutro post, talvez.

Na 4ª feira à noite houve também uma sessão Ignite (vídeo). Nove apresentações, 5 minutos cada uma, 20 slides, que rodam de 15 em 15 segundos automaticamente e que obrigam o orador a acompanhar o ritmo e a vender o seu projecto ou a sua ideia a uma audiência voraz (e crítica). Já conhecia o conceito mas não sei bem porquê, nunca tinha assistido a uma sessão. Adoro estes formatos de apresentação e de discussão. Pergunto, malta, porque é que não fazemos uma coisa destas em Lisboa? Who’s in?

Um dos projectos que surgiu na Ignite e de que gostei bastante foi o Lab Signific. É uma espécie de concurso de ideias, colaborativo, baseado em cartões virtuais (think twitter e post-its) com rankings de popularidade de ideias e que tem como ponto de partida um mote. O mote na ETech foi “What will you do when space is as cheap and accessible as the Web is today?” (algo que pode bem ser possível daqui a uma década). O outro que me agarrou à cadeira foi a história dos tubos pneumáticos em Paris apresentada pela Molly Wright Steenson (Steampunk Infrastructure, 21st Century Uses, aqui).

Não me posso esquecer que aproveitei para rever uma série de conhecidos, incluindo o Bunnie Huang da Chumby, o grande e único Mitch Altman da Make! (que me deu um efusivo abraço à americana, daqueles que deixa qualquer europeu habituado a um simples e cordial “passou bem e até já” meio embaraçado) e claro a malta do Scratch que também surpreendeu pela positiva a audiência (aparentemente o Scratch já é mais conhecido em Portugal do que nos US, é bom saber que estamos na linha da frente no que diz respeito a bons parceiros).

As tags da ETech foram etech e etech09, vão encontrar imenso material na web social. Algumas apresentações das sessões podem ser encontradas aqui ou no Slideshare. Existem também uma série de vídeos no Youtube e no canal da ETech no blip.tv. As coisas devem ir surgindo, sugere-se a subscrição dos feeds. Fui também guardando aqui uma série de links para referência.

Sugere-se também o feed de twitter da @etech e os posts regulares do O’Reilly Radar.

Pronto aqui fica o sumártio executivo, que também serve de draft para a sessão interna que vou fazer no SAPO. Para o ano há mais.

PS: Também comprei um Kindle 2 por terras americanas, sai um post sobre isto em breve.

Portuguese, Tech stuff

Slides da #momopt

March 3rd, 2009

Ontem, a convite do Vitor Domingos, fiz uma pequena apresentação informal para o primeiro encontro (oficial) do MoMoPT e em formato de “food for thought” sobre a incursão do SAPO no mundo Mobile, como o vemos, como o abordámos e qual é a nossa estratégia (macro). Parabéns pela iniciativa, precisamos de mais coisas destas em .pt. Gostei.

Os slides estão aqui para quem os quiser ver.

Portuguese, Tech stuff

Pequenos prazeres

February 14th, 2009

O dilema

February 11th, 2009

Ocorreu-me que o maior dilema dos mais obcecados utilizadores do Twitter é quererem twittar que o serviço está em baixo, na oportunidade de dizerem algo de realmente importante durante o dia, talvez a única, e não conseguirem. A sensação deve ser tão frustante que alguns até recorrem ao blog para desabafar. Triste. Ah espera…

Portuguese, Tech stuff

Nas nuvens

February 1st, 2009

CloudsÉ sabido que nós, os humanos, precisamos de referências para evoluirmos, faz parte da nossa natureza e sem elas temos imensa dificuldade em nos orientarmos e ficamos perdidos sem sabemos se estamos no caminho certo. As referências, sejam pessoas, líderes, datas, nomes ou simplesmente coisas, são assim como as bombas de gasolina e os cafés da Mimosa na altura da antiga IC1 que ligava Lisboa ao Algarve quando não havia auto-estrada: sem elas era impossível fazer a viagem.

Na Internet há várias referências ao longo da sua história e quase todas corroboram o meu raciocínio. Uma das mais recentes e mais conhecidas é o fenómeno da Web 2.0. Se o Tim O’Reilly não tinha inventado o nome, não tivesse ele o brilhantismo de constatar que estava em curso uma significativa mudança de comportamento dos utilizadores e de a baptizar e a bradar atempadamente aos sete ventos, e nada de tecnologicamente significativo teria acontecido nos últimos 5 anos, o que seria muito triste. Porque a realidade é que de facto, tecnologicamente falando não houve realmente nenhum “breakthrough”. Mas o que é importante reter é que o simples facto de alguém ter criado um nome e assinalado o momento com um chavão tão “catchy” como Web 2.0 foi o combustível suficiente para fazer explodir uma nova geração de serviços na Internet. Uma simples constatação que estimulou uma evolução e que praticamente criou uma nova indústria de startups e serviços, a dos websites em tons de pastel, com urls terminados em …kr ou ..tr, que usam e abusam do xmlhttprequest (vulgo ajax, outra referência), que têm apis, são “open”, têm um blog e que de uma forma ou de outra se dizem ter características de “social networking” (e vai outra).

As referências são fixes, é seguro dizer. Sem elas não andamos para a frente, e não é sarcasmo, juro.

Isto tudo para me levar ao tema do post: The Cloud, a buzzword do momento. Não há fabricante, fornecedor ou consultora da área que se preze que não tenha hoje uma vincada opinião sobre a clara tendência da migração dos serviços para a Cloud. E aí está uma oportunidade perfeita e a aparecer na melhor altura para potenciar uma nova vaga, vigorosa e revitalizada, de produtos, serviços e projectos para meter as empresas modernas e com olho para o futuro dentro da bem-fadada nuvem.

Mas o que é fascinante para mim e talvez o que distinga esta referência de outras, é que esta é completamente feita de vapor e parece-me servir um único propósito: o dos vendedores. Ou eu sou muito cego ou não há nenhuma ruptura de comportamentos ou tecnologias a acontecer, há simplesmente um tendência linear que não mereceria ser assinalada se não fosse a oportunidade de colocar a malta nas nuvens, só para manter a metáfora. Senão vejamos:

“The Cloud” vem da velha representação nos slides e nas apresentações da Internet, que seria tão complexa e grande para desenhar que se convencionou uma simples núvem aonde tudo estaria, desde o site do museu do louvre à página de entrada de Portugal. O resto torna-se óbvio, hoje temos tudo na Internet, a nossa agenda, as nossas fotos, os vídeos, o blog, saiu tudo do computador, emanciparam-se e foram viver para a nuvem aonde todos os podem ver comodamente em qualquer lado e de qualquer forma. E para suportar esta visão surgiu o “Cloud computing”, que é uma espécie de computador que também vive nos céus.

Só que, ao contrário do que se diz por aí agora, “Cloud computing” é um modelo não é uma tecnologia nem um produto. É uma arquitetura que consiste em utilizar um conjunto de tecnologias que já existem há anos e amadureçam naturalmente: APIs, serviços, a Web e o browser como uma plataforma de aplicações, computação remota e/ou distribuída, os nossos dados e a nossa vida na Internet  (literalmente para alguns). Não há um produto de “Cloud computing” chave na mão e quem vos disser o contrário está a enganar-vos. E justiça seja feita, se alguém merece reconhecimento por anos de advocacia e pelas suas iniciativas que nos permitem hoje conceber este paradígma com clareza e robustez não são certamente os mesmos que hoje se aproveitam da moda.

  • A Amazon através da  AWS disponibiliza produtos como o SimpleDB, o EC2 ou o S3, entre muitos outros, e o seu CTO Werner Vogels é um dos grandes evangelistas e visionários deste modelo. Respect.
  • O Google fez o Google Apps (goste-se ou não), lançou o App Engine, tem uma série de aplicações riquíssimas que mostram claramente que a web como plataforma existe e sempre deram o exemplo ao abrirem APIs à comunidade. Respect.
  • A Big Blue IBM tem tido um papel moderado na adopção deste tipo de arquiteturas, no entanto tem apoiado uma série de projectos Opensource relacionados. Respect.

E depoia hoje qualquer um pode construir a sua própria “Cloud” com a sua  infra-estrutura de tecnologias e serviços baseada exclusivamente em componentes Opensource, a saber:

  • Hadoop, uma espécie de versão Opensource do GFS, implementa MapReduce e pode processar Petabytes de informação.
  • CouchDB, uma base de dados acessível por APIs REST/HTTP/JSON, distribuída e fault-tolerant.
  • Xen, virtualização para todos.
  • E claro, um catálogo de APIs. No SAPO, a título de exemplo, construímos o BUS e o Broker que foram fulcrais para o nosso futuro. Há outras soluções.
  • Adicione-se OpenID e OAuth e uma pitada de Microformatos.

E termino citando o Anton Ego: “Since you’re all out of perspective and no one else seems to have it in this BLOODY TOWN, I’ll make you a deal. You provide the food, I’ll provide the perspective…”.

Ou em Português, não se deixem levar pelo recente hype do “The Cloud”, metam pespectiva nisso, compreendam o que significa e o que está na sua base. Os modelos são isso mesmo, são opções não são verdades absolutas nem inevitáveis. Há multiplos cenários possíveis, construam o vosso gradualmente (e de forma modular) e não se deixem levar pelas “gordas” dos estudos nem pelas “silver bullets” dos fabricantes. You’ll regret.

Portuguese, Tech stuff , ,