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Celso Martinho This Blog is about technology, programming, entrepreneurship, innovation, and the Internet. I write for myself, my friends and people with these common interests. Posts are in Portuguese and English, according to the subject or my mood.

04 September 2011 ~ 4 Comments

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04 September 2011 ~ 13 Comments

Ensaio sobre Portugal, parte 4, Fado

Perspectiva.

No filme Ratatuille há uma cena deliciosa que eu não me canso de citar em que o Anton Ego diz assim: “- Do you know what you’d like this evening, sir? -Yes, I think I do. After reading a lot of overheated puffery about your new cook, you know what I’m craving? A little perspective. That’s it. I’d like some fresh, clear, well seasoned perspective. Can you suggest a good wine to go with that?”. Retenham esta ideia.

Uma das nossas características que mais dificuldade tenho em perceber é o pessimismo. É um estado de espírito tão vincado e tão óbvio na nossa cultura que já transpõe fronteiras e se tornou uma imagem de marca do país. É como se os nossos antepassados tivessem sido amaldiçoados com uma depressão emocional de mil anos que se haveria de transmitir por muitas gerações e da qual somos todos vítimas e não conseguimos escapar. Chamam-lhe o fado, acho que é uma tentativa popular de tornar isto mais romântico, mais digno, mais melancólico e artístico, assim com há os “the blues” nos EUA mas eu acho que é uma versão optimista de algo que considero profundamente mau.

A razão pela qual recorro às bruxas é porque não há muito que do ponto de vista racional que eu consiga encontrar e que justifique este negativismo constante. E a prova de que a origem do fado tem que ser centenária e tem que ter explicações ao nível do DNA e da evolução das espécies é que ele sempre existiu, quer nos ciclos de crescimento, quer nos ciclos de crise. Os nossos avós tinham o fado, os nossos pais também, nós idem, e os nosso filhos serão provavelmente contaminados por esta praga.

Nem vou falar do país lindo cheio de sol e de mar que temos, nem da nossa boa qualidade de vida relativa, nem dos nossos excelentes recursos e oportunidades, ou dos povos infinitamente mais desfavorecidos e com muitos mais problemas do que nós mas que irradiam felicidade e alegria, não. Isso levaria a uma discussão quente com os marretas do costume a invocarem todos os nossos problemas e mais alguns e que não quero ter agora. Vou simplesmente argumentar que para um determinado problema, por muito grave que seja, há sempre pelo menos dois ângulos do prisma: um pessimista e um optimista. E o português escolhe recursivamente e conscientemente o caminho da lamúria e do queixume.

Muito nos queixamos nós. Queixamos-nos de tudo e de todos, dos salários, da corrupção, dos preços, dos políticos, dos impostos, dos polícias, da saúde, da educação, da economia, do emprego, do trânsito, do calor, do frio, da chuva, do vizinho, dos ricos e dos pobres, está sempre tudo errado, foi sempre tudo mal feito. E para complementar também gostamos da bela da comparação. Nada como usar uma boa comparação para ajudar à festa do queixume, preferencialmente uma que seja baseada em factos isoladas, sem contexto, tirados de uma realidade distinta, o que interessa é construir a metáfora e depois dar-lhe no discurso.

Voltemos à perspectiva. Sabem o que me dá imensa perspectiva? Viajar. Aproveito todas as oportunidades profissionais e pessoais que tenho para o fazer. E quanto mais o faço mais fico convicto que é uma das actividades que mais nos pode enriquecer como pessoas. Quando chego a um país novo e tenho contacto com uma cultura diferente transformo-me num alienígena deslumbrado, fico com aquela cara de burro a olhar para um palácio, e durante as primeiras horas fico num estado de transe introspectivo, a olhar para a cara das pessoas dentro dos carros e na rua, a escutar conversas, a ler os cartazes e a estudar os comportamentos e as reacções dos nativos, é assustador, ainda vou preso por isto. E infelizmente para quem não consegue ou não gosta de viajar, deixem-me dizer-vos que o conhecimento empírico aqui é crucial. Não há livro, nem estatística, nem Wikipedia nem relato que seja tão genuíno, eficaz e transformador como este contacto em primeira mão e esta vivência. Inconscientemente, acho eu, o que procuro é a resposta para uma pergunta muito simples e muito primitiva mas que me assola: estas pessoas são felizes ou não?

Há duas conclusões que a vida já me ensinou: 1. Há um contraste enorme e surpreendente entre a percepção que temos dos outros povos e a realidade dos mesmos. 2. A relação inequívoca entre a riqueza, os problemas de um país e a felicidade das pessoas é um mito absoluto. Não existe e há imensos exemplos disto. E portanto é como vos digo, se por hipótese amanhã saíssemos deste buraco e criássemos o mais justo, mais próspero e mais promissor país de que há memória na nossa história, garanto-vos que continuaríamos amuados, pessimistas e casmurros, porque é mais forte do que nós, corre-nos no sangue esta maldição.

Isto só é importante porque talvez nos ajude a compreender melhor a situação aonde nos encontramos. É certo e sabido que há uma relação forte entre o pessimismo, a aversão ao risco e o empreendedorismo (ou a falta dele), aliás a própria crise financeira recente está-nos ensinar isto muito bem com a lição dura de que a credibilidade, a especulação e a imagem, tudo factores subjectivos, são muitas vezes mais importantes e determinantes do que o pragmatismo dos factos.

É minha convicção de que o fado nos afecta muito, mais do que julgamos, e prejudica as pessoas, as empresas e a nossa sociedade em geral. Sorte terão aqueles que conseguirem negar esta herança e que por virtude de uma educação excepcional, de uma vida atípica, ou devido a uma mutação genética inesperada, consigam ser Portugueses optimistas. Esses vão ver as oportunidades aonde todos vêm problemas e defeitos, e se forem determinados e tiverem as ferramentas certas, vão-se dar muito bem, garanto-vos isto.

Antes: Sucesso

A seguir: Conclusão

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03 September 2011 ~ 5 Comments

Costa Vicentina, Portugal, Quad Bike Ride

A couple of years ago I bought a quad bike for fun and pleasure to play around the beautiful southwest coast of Portugal, more precisely the Costa Vicentina, near Aljezur where I own a house. Years passed through and between less visits to the southwest, a busier life, kids and other hobbies, I had temporarily forgotten how amazing the experience can be.

Recently I bought a goPro camera, great device, and a bunch of accessories to go with it too. So the last weekend I thought it would be a great opportunity to take the quad out of the garage, take a ride around the inaccessible coast roads of Aljezur and show you the breathtaking places most people don’t know about this region and most cars can’t go, like secret desert beaches, natural preserved lakes and other awesome spots.

I took the time and patience and experimented with a lot of the camera accessories, mounting the goPro in different places on the bike and different configurations and I gathered some ~30 gigs of 720p footage. Also I’m learning more and more FCPX techniques so this was a great chance to improve my skills. This is the edited result. Hope you like it.

HD version here.

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16 July 2011 ~ 21 Comments

Ensaio sobre Portugal, parte 3, Sucesso

Independentemente da profissão e do percurso das pessoas eu tenho por princípio nutrir uma grande admiração por todos aqueles que conseguem alcançar o sucesso profissional em Portugal. Estas pessoas têm que ser excepcionais a muitos níveis: não só na sua área de especialidade, mas também na determinação, resistência e na garra que têm que ter para conseguirem ultrapassar tantas barreiras.

Cheguei à conclusão que Portugal é um dos raros países do mundo que consegue condenar o fracasso e o sucesso ao mesmo tempo, o que é obra. O fracasso é culturalmente marcante e o sucesso é politicamente penalizado. De uma forma ou de outra o indivíduo que sair dos padrões da aceitação económica ou social predominantes deste país vai sempre levar no pêlo.

Passo a explicar.

“Falhar é humano” não é frase que se ouça muito por terras lusitanas, a não ser, claro seja, quando é proferida por falhados. Um gajo bem sucedido não é aquele que durante a sua vida acertou mais vezes do que errou. Não. Aos olhos desta aldeia de 10 milhões de vizinhos coscuvilheiros de descendência latina o tipo será essencialmente um incompetente que só fez asneiras.

E até vou mais longe. A raiz do nosso problema é que somos mesquinhos, estamos habituados e acomodados a sermos pequenos e pobres e parece que não temos grande vontade de o deixar de ser. E quando assim é, espezinhar os outros passa a ser um desporto, uma defesa natural, uma especialmente cobarde diga-se, contra a hipótese remota de “um dos nossos” vir a ser alguém. Estigmatizar quem falha e amaldiçoar quem vence é como que uma forma de prevenção para garantir um padrão social de tranquilidade colectiva. E convenhamos, nós gostamos de padrões e gostamos de estabilidade, mesmo que o padrão seja péssimo e que a tranquilidade o proteja. E o resto, meus amigos, na minha opinião deriva disto.

E depois, este tipo de socialismo político que insiste em penalizar o sucesso como solução para todos os nossos problemas não tem futuro nenhum. E isto é um barrete que bem pode ser enfiado por qualquer um dos partidos que já tenha estado no poder durante a memória da minha geração, incluindo os da dita ala direita da assembleia.

Não haja confusão, não se trata de ser contra o estado de bem-estar social nem contra o princípio basilar de que para este garantir a saúde, a educação, os subsídios de desemprego e a segurança social, os ricos contribuam mais  para ajudar os mais desfavorecidos. Até aqui tudo bem, gosto. Mas esta noção perfeitamente romântica que nos persegue há décadas de que podemos subsidiar todos os problemas de um país ineficiente à custa do sucesso daqueles que o conseguem alcançar, com isto não posso concordar nunca.

Qual é afinal o incentivo e a proposta que temos para dar aos nossos jovens promissores em Portugal? Trabalhem muito mas não demasiado, só o suficiente para não saírem do padrão? A sério? É com esta ambição e motivação política que vamos evitar a avalanche de fuga de talento que se avizinha nos próximos anos face ao que está prestes a acontecer com a nossa economia? Não me parece.

Para alcançar, respeitar e saborear o sucesso, Portugal precisa urgentemente (também) de uma cultura de falhanço.

Como é que podemos falar tanto de empreendedorismo e de inovação quando o sistema está todo ele montado para conduzir os jovens empresários por percursos lineares. Ser empreendedor significa tudo menos linearidade ou padrões: significa sonhar, arriscar, falhar e tentar de novo, e fazer disto um processo iterativo como um fim para alcançar os objectivos, e ser muito rápido quando o é necessário, não se coaduna nem com leis conservadoras nem com um sistema político-cultural que, tirando jogadores e treinadores de futebol, dispensa sucesso profissional em excesso.

As partes boas? Calma, lá chegarei.

 

Antes, Parte 1, Parte 2 – Iedologia

A seguir: Parte 4, O fado.

 

11 June 2011 ~ 12 Comments

Ensaio sobre Portugal, parte 2, Ideologia

Um homem que não acredita em nada, sem ideias, é uma pessoa sem rumo que pouco poderá fazer por si e que muito menos fará pelos outros. Os jovens deviam ter a ambição de serem pessoas cheias de crenças, mas ao invés constato que a tendência passa muito pelo inverso: as grandes preocupações da actualidade são a consensualidade, a aceitação, o estatuto. Deixem-se dizer-vos o que é que eu penso de pessoas consensuais: são desinteressantes, tipicamente nunca fizeram nada de jeito na vida e aborrecem-me muito, dão-me literalmente sono.

Para os mais novos fica aqui uma observação que tiro da vida, em jeito de conselho. As pessoas mais inteligentes que eu conheço fazem-se rodear por com quem mais discutem e de quem mais discordam em questões de fundo, tanto pessoal como profissionalmente. Mais rapidamente respeitam alguém de quem discordam veementemente do que alguém que se limita a concordar passivamente com eles. Peço-vos encarecidamente que não sejam consensuais nem tenham nunca essa meta na vossa vida, questionem tudo e todos, encham-se de convicções e lutem por elas, sejam corajosos.

Não sei bem como chegámos aqui mas entristece-me esta passividade generalizada em que vivemos e este certo défice de certezas e de ideias a que assisto. Perdoem-me a generalização, detesto fazê-lo e sei que não faltam excepções, felizmente conheço muitas, mas serve para ilustrar a teoria de que há indiscutivelmente uma crise ideológica nas gerações mais novas em Portugal.

Quando é que nas últimas décadas os pais se esqueceram de ensinar aos filhos que a vida ia ser difícil, que os deveres estão à frente dos direitos e que a educação, o trabalho, o espírito crítico, pensar, a paixão e a curiosidade são um milhão de vezes mais importantes do que o conforto ou a aceitação social? De onde é que apareceu este proteccionismo parental extremo que não faz mais do que colocar os seus descendentes numa permanente zona de conforto ilusória e que mais não os prepara para o futuro do que uma prisão domiciliária? Desde quando é que a independência, no seu sentido mais lato, deixou de ser uma das maiores ambições dos jovens?

Vivemos para satisfações imediatas. É tudo cuidadosamente orquestrado e desenhado para maximizar o prazer pelo tempo. Construímos um mundo cheio de opções, cheio de entretenimento, cheio de facilidades e recursos de lazer e de prazer em que o Santo Graal, mesmo que inconscientemente, é colocar-nos a todos num estado de permanente felicidade. Mas não há tal coisa, o “volte-face” evidente é que é que estamos a destruir o “Yin e o Yang“. Não é possível percebermos a felicidade sem sermos infelizes tal como não possível termos ocasiões de genuína satisfação, chamo-lhes momentos ZX Spectrum, sem trabalho nem sofrimento.

E é por isso que hoje, talvez mais do que nunca, a educação e os valores que transmitimos aos nossos filhos são tão importantes. São mais importantes do que eram na altura dos nossos pais porque o risco é muito maior. O menosprezo destes princípios é, na minha humilde opinião, a origem de muitos males modernos pois resulta num vazio ideológico grande que consequentemente leva ao desinteresse, à falta de curiosidade e de foco, à desvalorização do esforço, e ao inevitável falhanço dos jovens como pessoas adultas. Haverá coisa mais deprimente do que ver uma turma de alunos do ensino secundário completamente alheia e desinteressada por tudo e por todos? E no entanto é uma imagem que me é transmitida vezes sem conta por bons professores, daqueles que têm vocação e que gostam do que fazem e que se esforçam por marcar a diferença. Dá que pensar.

Não se assustem, isto vai melhorar. Faz tudo parte de um raciocínio para chegar às partes boas.

Antes: Parte 1.

A seguir:  Parte 3, Sucesso.

07 June 2011 ~ 6 Comments

Ensaio sobre Portugal, parte 1

Entre tempos livres e pensamentos que me ocorrem, ando há umas semanas a rabiscar uns textos sobre este Portugal aonde habitamos. Fi-lo para minha própria referência, porque gosto e porque acho que a escrita é um excelente instrumento de preservação do que nos vai na alma durante vários contextos da nossa vida.

Decidi que vou partilhar este ensaio neste blog por dois motivos. Primeiro porque a ocasião é propícia pois vivemos tempos de contestação e de reflexão como há muito não me recordo, e segundo tenho um genuíno interesse em provocar reacções a algumas destas ideias e pode ser que consiga obter algumas, espero que sim.

O texto é um bocado longo e por isso decidi parti-lo às postas. De outra forma seria intragável e provavelmente enfadonho, infelizmente não me parece que eu tenha o dom de quem consegue agarrar o leitor ao blog pelas sábias e mágicas palavras. Por outro lado eu tenho este hábito antigo de arrumar as minhas ideias em caixas e estruturar o meu raciocínio quando escrevo, como se de um programa de computador se tratasse, e portanto já tenho tudo preparado para debitar isto em lotes, melhor assim.

O que se segue deixa-me com uma ligeira sensação de nudez porque não me sai naturalmente, sou tímido e introspectivo de personalidade e não é habitual extravasar muito para além das minhas facetas profissionais ou das minhas áreas de conforto nativas.

Sobre mim

Tenho 38 anos e nasci e cresci longe das grandes cidades num sítio que poucos conhecerão e que se dá pelo nome de Sangalhos, talvez mais conhecido pelos tempos gloriosos do ciclismo e do basquetebol, terra das caves vinícolas e do leitão da bairrada. Os meus avós foram lá ter, os meus pais nasceram e cresceram lá e o mesmo nos aconteceu, a mim e ao meu irmão, os meus tios e primos e outras ramificações da nossa árvore genealógica. Digamos só que o nosso apelido não passa despercebido na pequena e pacata, mas grande, vila de Sangalhos.

Nunca houveram nem grandes tragédias nem grandes novelas na nossa família, sinto-me privilegiado por ter crescido rodeado por todos os meus avós, primos e tios e bons amigos na infância, num ambiente estável, com estrutura, cheio de vitalidade, e com fortes laços de família e de amizade. Até mesmo muito tarde eu não conseguia sequer conceber conceitos como o divórcio, a separação ou a própria morte. Acostumei-me aos grandes almoços que nos reuniam a todos, às vindimas, à romaria de porta em porta indiscritível que era (e é) a Páscoa na nossa terra, ao Natal e à missa do galo, à matança do porco em casa dos meus avós, aos jogos de basquete do SDC ao fim de semana, a brincar e a jogar livre na rua com os meus amigos, e a ir a pé para a escola.

Fui educado com muita liberdade mas também com um forte sentido de responsabilidade e os meus pais conseguiram-me ensinar desde muito cedo, com mestria e com um tacto invejável, que nada me ia cair do céu durante a vida se eu não lutasse por isso e o merecesse. Ensinaram-me a ser honesto mas ambicioso, a não desistir, a ter garra, e que é possível alcançar quase tudo na vida se realmente nos empenharmos. Levei com todos os puxões de orelhas, castigos, elogios e recompensas que mereci. Como lhes agradeço por tudo.

Há muitos episódios da minha educação que me marcaram e me transmitiram alguns dos valores que me moldaram como adulto e dos quais não me esqueço com facilidade. Vou só mencionar dois para efeitos de ilustração do que pretendo dizer mais tarde:

Por volta dos 11 anos eu descobri com bastante intensidade e determinação que os computadores e tecnologia iam de alguma forma fazer parte do que eu queria fazer na vida. E ainda nem sequer tinha um computador. A obsessão com que eu acampava às 8 da manhã todos os Sábados e Domingos à porta da única pessoa lá do sítio que possuía um Z81, amigo dos meus pais, colocar-me-ia rapidamente num consultório de psicologia infantil pelas normas de hoje, confiem em mim. Os meus pais perceberam imediatamente a vocação mas não se deslumbraram em presentes. Eu tive que perceber que ia ter que lutar por ter o que queria. Só me foi oferecido o meu primeiro computador, um magnifico ZX Spectrum 48K, depois de muitas poupanças e de me esfolar em trabalhos nas férias do verão, e de ter boas notas no liceu. A satisfação com que eu abri o embrulho nesse Natal foi tal que me lembro desse preciso momento como se tivesse acontecido ontem. Mais sobre isto à frente.

Com 19 anos eu já vivia fora de casa dos meus pais. Estudava na Universidade em Aveiro e trabalhava em part-time numa loja de computadores aonde geria uma BBS e ajudava a coordenar e evangelizar o negócio da representação e venda de Commodore Amigas, uma marca de computadores pessoais emergente no início da década de 90. Com este dinheiro e com a ajuda dos meus pais eu conseguia alugar um quarto e viver em Aveiro com uma independência invejável que os meus colegas de curso não tinham. Por esta altura desenvolvi uma nova paixão: a das telecomunicações. Do radio amadorismo às BBS e ao X.25, em breve eu daria por mim a fazer Blueboxing numa base regular. Para encurtar esta história, que prometo dará um texto um dia, fui finalmente apanhado pela Policia Judiciaria. Nesse inesquecível dia bateram-me à porta de madrugada, confiscaram-me todo o meu equipamento informático, levaram-me para a esquadra, interrogaram-me e invadiram a empresa aonde eu trabalhava, para espanto e indignação dos meus chefes, à procura de mais provas.

Poucas semanas mais tarde eu seria constituído arguido naquele que viria a ser um dos primeiros casos de crime por fraude informática em Portugal, um particularmente mediático e insólito para a época que vivíamos. Os pais dos meus amigos parceiros no crime reagiram de formas diversas, uns contrataram advogados, outros proibiram os filhos de voltar a mexer em computadores, outros ameaçaram-nos de os tirar da Universidade, e outros tudo ao mesmo tempo. Os meus, surpreendentemente, e daí a marca, não fizeram absolutamente nada. Não me repreenderam, não alinharam em histerias, não tentaram resolver nada. A minha vida continuou como se nada tivesse acontecido e eu limitei-me a assistir às consequências que o episódio teve nas vidas dos meus amigos. Não é que fossem insensíveis, ou que não reagissem de outra forma se o caso fosse muito mais grave, mas havia nesse tempo uma mensagem muito mais importante para me transmitir: eu era crescido, sabia o que andava a fazer, sabia perfeitamente distingir o bem do mal, não era um jovem baralhado, e até prova em contrário teria que lidar com a responsabilidade das consequências dos meu actos.

Um ou dois anos mais tarde, eu e mais 5 colegas criámos o SAPO no Centro de Computação da Universidade de Aveiro. Se anteriormente a reacção dos meus pais tivesse sido metade daquelas a que os meus amigos se sujeitaram, talvez a história da minha vida hoje fosse outra, uma completamente diferente.

A seguir, daqui a uns dias, a parte 2: Ideologia.

 

23 April 2011 ~ 13 Comments

Muito à frente!

Dava-se o ano de 1986, mais coisa menos coisa, contas feitas de cabeça, tinha eu uns 14 anos e passava na rádio um programa de características muito invulgares que me agarrava à aparelhagem de som dos meus pais numa obsessão semanal digna de um caso de estudo sobre doenças adolescentes.

Todas as semanas, ao Sábado ou ao Domingo à noite, não consigo precisar, passava numa rádio nacional um concurso dedicado aos amantes do famigerado e popular ZX Spectrum. Durante alguns minutos o locutor calava-se e na sua vez ouvia-se o ruído estridente de um programa de ZX Spectrum a passar nas ondas radiofónicas do país. Sim, esta barulheira era o que qualquer ouvinte teria que suportar se sintonizasse a estação nesse momento.

O objectivo era simples: o ouvinte gravava a emissão numa cassete, que depois carregava no seu ZX Spectrum. Lá dentro estava um simples programa em BASIC. Esse programa continha um erro e o ouvinte programador amador teria que o identificar e ligar para um número de telefone previamente comunicado na emissão. O primeiro a ligar e a acertar ganhava o prémio. Eu saquei 3 prémios à custa disto. Um deles foi o famoso cartapácio The Complete Spectrum ROM Disassembly, que devorei, claro.

Este programa era genial. Há mais de 20 anos fazia-se na rádio em Portugal o primeiro programa de difusão digital interactivo quando hoje ainda se fala de interactividade entre a TV/Radio e a Internet como uma grande inovação. Respeito.

Agora, faz-me muita confusão que não encontre uma única referência online a este acontecimento e não consigo descansar. Eu sei que não sonhei com isto porque tenho provas irrefutáveis, sei também que a rádio era nacional porque me recordo de ligar para um número em Lisboa, sei que era FM e que o programa não durou muito tempo, vá-se lá saber porquê. Há referências aos concursos de ZX Spectrum no Zig Zag ao Domingo à tarde na televisão, bem como ao Ponto por Ponto com o Raúl Durão e o Paulo Dimas, mas sobre este épico acontecimento é que nada.

Ora então vamos lá testar o poder das Interwebs. Alguém sabe qual era o nome do programa, quem o fazia, e em que rádio passava?

09 April 2011 ~ 1 Comment

Talks em Maio

É bom sair de Lisboa de vez em quando e participar no que de bom se organiza fora da grande capital.

No dia 7 vou estar presente na Talks 2.0, no Porto, com o tema “Happiness and Creativity in your Work Life” aonde farei parte de um painel que falará sobre “Happy and Creative Companies”.

E no dia 14 lá estarei, na Universidade da Beira Interior, para falar na TEDxCovilhã sobre “Balões e Empreendedorismo”, apresentação que me está a dar especial gozo em preparar.

Lá nos vemos.

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Update: Slides da apresentação da Talks 2.0 aqui.

08 April 2011 ~ 3 Comments

Resultados do Inquérito sobre o Panorama Nacional Tecnológico

Cross posted a partir do Blog de Developers do SAPO.

No início do mês pedimos-vos a vossa opinião sobre um conjunto variado de questões sobre o Panorama Nacional Tecnológico.

A resposta ao nosso repto foi enorme e agradecemos-vos muito a vossa contribuição. Responderam 421 pessoas ao inquérito e o resultado, tal como esperado, foi interessante. O SAPO tem um especial interesse em compreender bem a realidade que nos rodeia no contexto da tecnologia em Portugal e o vosso feedback foi da maior utilidade

Tal como vos prometemos, ficam aqui os resultados do inquérito, já agregados e tratados.

27 March 2011 ~ 7 Comments

Spacebits, Flights 3, 4 and 5

(cross-posted from the Spacebits blog)

On the 23rd of October, the Spacebits team did something of epic proportions. Thanks to the amazing support and sponsorship of SAPO.PT, we organized an unique event and simultaneously launched 3 high altitude balloons all from one single place.

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It took us a few weeks to put everything together. We began by inviting every geek and hacker at SAPO.PT to join the team and work with us to accomplish our mission. The first two weeks were dedicated to a few sessions to explain all our learnings from Spacebits 1 and 2 flights to all our new team members. Soon after, everyone was working hard with us. We got a lot of great feedback on how to improve our payload aerodynamics, calculate the right amount of helium for each balloon, predict the crash spots, making the “todo” lists, etc. It was like having all the best city physicians, mechanics and engineers working with you. Dream team.

Read the rest of the entry and watch our video at the Spacebits Blog post.

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